sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

by alskander ©alsk / Iniciado em 10.08.04


rabisco >



Acabei de morrer. Recorda-se não somente com o que acende estes olhos de agora. Algo enraíza-se, combinando-se, batidas cardíacas em descompasso. Cada vez menos artificial. Susto agudo e relâmpago, mas antes mesmo que pudesse aperceber-se da inconsciência, pisca e já está exatamente onde está. Pode ser que nem tenha piscado, apenas fisgara a cabeça para cima a meio caminho do baque no teclado. Pescoço rijo. Bizarro, ainda que essa certeza se imponha; pensa. Certo tipo de convicção que se tem quando sente um gosto ou ouve um barulho. Fome. Arrepia; ainda que o som me pareça inexistente. Estava em algum ponto de um pensamento quando... Veja! Veja!; veja a frase que bem a pouco eu escrevi. Palavra cortada e desfeita ao meio em um rabisco desordenado. Linha retorcida, indecifrável. Por ali morreu e acordou. Olha em torno com desconfiança automática. Dedos descompassam pancadas na mesa. Não há indícios que realmente comprovem a veracidade dessa morte de agora - a não ser a quase palavra! Não há testemunhas. Eu como testemunha não me sustento consistente? Ele morreu. Pode comprovar o contrário? Necessita de um comparsa? E se o comparsa for esse invisível chamando-lhe pelo nome? Acordando-o. Olhando-o nos olhos: visão estacada num ponto qualquer como que hipnotizado. Músculo no antebraço salta, tremelicando um dos dedos. Peixe no aquário estatelado de sonolência. Permaneçe paralítico de silêncio. Atento. Cada pedaço do corpo parece adquirir cérebro próprio, quase consciente do elo fatalmente dependente entre eles. Sabor nas juntas de potência violenta. Levanta-se da cadeira e circula pelo escritório como uma bola que se mantém quicando entre as paredes, atravessando diversas vezes o vão enfrente a ampla janela atrás da mesa, servindo-se de um copo d’água que não bebe, mastigando pedras de gelo enquanto a mulher no prédio vizinho conversa ao telefone. Será que ela viu a morte acontecendo? Escritório sendo recortado por passos largos. Parados de súbito, tomando rumos inesperados. Passa a mão na nuca suada. Sei que morri; suspira quase ansioso. Morri de parada fulminante do coração. Apertou a caneta com tamanha força. Que me dói os dedos até agora. Caixa torácica alargando-se ofegante. Mas quem garante estar realmente vivo? Vira o copo d’água num gole. Espalma a mão sobre o peito distraindo-se pelo rufar cardíaco que persegue. Olha-se no espelho com a semelhante insistência quase imperceptível que aciona ar pelos pulmões.

Telefone toca e por uma tal eternidade não ousa mover o pescoço. Olhos rangem ao escorregarem dentro das cavidades oculares. Atende. Traga-o, traga-o imediatamente; sua voz sai rasgando, no limiar de um descontrole. A secretária entra pendendo pelo peso do dicionário de sinônimos. O esforço que faz para não demonstrar receio perante incisivos olhos causa-lhe mal estar. Concentra-se no fio da palavra interrompida com tamanha intensidade que as palavras em torno assimilam-se a um emaranhado de torções desapercebidas. Estalo da porta fechando solavanca-lhe. Permanece em silêncio. Silêncio. As pancadas do relógio na parede é um entre os lembretes do escoamento que ele barganha com inusitada resistência. Ele percebe-se diferente, desperto com estridente discernimento. Tudo em volta retorna-lhe com uma riqueza de detalhes que lhe espreme os olhos. Não se move, mas é como se o olhar esticasse-se pelas dobras e lados das coisas. Todos os sentidos em acelerada expansão e contração. Respirando. É capaz de intuir com tamanha precisão que é como se pudesse tocar aquilo que foge ao campo de visão.

Papeis sobre a mesa. Continuar a trabalhar ofega-lhe fadiga. Na verdade foi sempre essa mesma agonia. Apenas tem aprendido a disfarçar. Diante das pessoas sempre foi essa expressão facial quieta, numa espécie de silêncio atarracado o suficiente para deixar qualquer um ao seu lado como que à espera de uma palavra. Palavra emperrando-se antes de admitir-se existir. Para dizer a verdade nunca pôde assimilar com exatidão os escoamentos fazendo-lhe acreditar no jogo do quotidiano. Som estridente riscando-se dentro da cabeça. Na medida em que executa esse jogo do vivo pelos dias sempre acaba por detectar um distanciamento que se alarga pacientemente, uma intersecção inchada de fome voraz entre ele e os componentes humanos. Ainda que se esforce em permanecer envolvido, como se sua função fosse aprimorar as artimanhas que dariam consistência ao calor que dali se fermenta (aqui), infalivelmente as faces desfiguram-se a ponto de lançar-lhe a deriva. Estranhamente, na medida em que esforça-se para ancorar-se em meio ao calor, sente-se sucessivamente tremulo; e se se permanece insistentemente no encalço desta comunhão, acaba pressentindo perda de equilíbrio antes da náusea demarcar uma ânsia de vômito querendo cuspir-lhe.

Cores vermelho e laranja e verde musgo do quadro bem enfrente derramam-se dentro de seus olhos. Moles e lentas escorrendo pelas curvas que levam para dentro. Rosto arde. Olhos. Há a esquisita sensação de que anda mentindo para si mesmo, sucessivamente encontrando um novo modo de olhar o mesmo objeto. De algum modo essa trapaça fustiga-lhe prazer. Um pássaro desloca-se em estrondo contra o vidro da janela. Gira a cabeça como se nada procurasse, como se fosse um ato tão automático que já não importa pensar nele. Pombo de pescoço mole estira-se no cimento do lado de fora, à beira de escorregar-se lá para baixo. Gota de sangue escorre do olho. Enruga o rosto. Rostos desfiguram-se. É assim que vê as pessoas. É-lhe intolerável ficar parado diante dos indivíduos, essencialmente em função da deformação que vai se apossando das cabeças até o instante em que se tornem irreconhecíveis. Ainda que aperte os olhos, encharcando-os de umidade, ainda assim nitidamente vê os rostos derreterem-se lentamente em expressões faciais totalmente distintas daquelas que a poucos instantes estavam ali. Não, não é que as expressões faciais tornem-se austeras ou qualquer coisa do tipo. Não é isso. Outros rostos, de outras pessoas, muitas das vezes absolutamente desconhecidas, fincam-se nos corpos como num passe de mágica. Permaneçe ousando-se. Quando começa a tremelicar despista-se dali imediatamente.

No trabalho Aurélio não pode simplesmente bater em retirada. Refinou a tal patamar esse desvio que em dois anos chegou a ser promovido três vezes. Ou quase, é que na terceira vez apenas mudou de ambiente. Desta vez essa janela enorme. Hoje ocupa um cargo que permite-lhe permanecer entre quatro paredes. Somente ele. O que de fato lhe tranqüiliza. Até agora. Lembra-se de súbito o que fazia quando morreu. Preparava um relatório que deve entregar no mais tardar amanhã à tarde. Fita o cursor piscando na tela do computador. De onde esta, sentado, dá para ouvir vozes entrecortadas por impressoras ativadas, teclados em uso. De algum modo chega a ouvir a pressão de lábios nos copos, som de água descendo pela garganta. Tudo em torno dele assemelha-se a uma ferrugem dilacerando a vida, oxidando-lhe as fendas que decepam-se freneticamente no sentido de manter-lhe escoando. Do seu modo. Um modo que já não o assusta tanto quanto agora a pouco, bem agora a pouco antes da breve interrupção sanguínea.

Dispensa a secretária mais cedo. Telefona para casa e ninguém atende. Queria dizer que provavelmente chegará tarde da noite. É que apesar da dúvida, do costume de retornar pra casa, sabe que depois de morrer não pode simplesmente voltar. Liga novamente e Helena está dormindo. Entorpecida, melhor dizendo. Quem atende é Armando. E como ainda não se acostumara com a bola de metal fincada em sua língua, ele tem que repetir várias vezes o que assemelha-se a uma almôndega de palavras indecifráveis. Pausadamente acaba compreendendo; vou a uma festa e não sei se volto hoje. Tudo bem, deixe um recado pra sua mãe dizendo que também chego tarde. Desligamos. Faz anotações para a secretária, enfia no bolso da calça a folha de papel com a palavra interrompida, desliga o computador, Toma dois copos de água gelada, apaga as luzes, puxa a porta. Mas antes que pudesse fechá-la vê a mesa sumindo, escoando-se pela gorda fresta da porta afinando-se pouco a pouco. Imagens vão tomando conta do ambiente, emergindo-se como um sonho desfragmentando-se com o passar do dia: seu braço sacudindo a caneta, rosto desumanamente retorcido, coração rompendo-se em convulsões para logo em seguida, como quando atravessa película de água em busca de ar, arqueia-se em um movimento retesado. Desabilitando a palavra. Pela entrelinha, com a porta sendo fechada já quase apagando a cena, uma multidão de vultos esgueiram-se próximos, pavimentando numa espiral de segurança o caminho por onde um risco de luz redemoinha-se para dentro de seus olhos. Arregala os olhos ainda segurando a caneta. Pela fresta da porta olha-se olhando-se. Por uma breve eternidade fitam-se. Surpresos. Ambos prestes a ter que recuar. Haverá o instante em que não se tolera o vivo que ousa. Trinco da porta estala.

Quando entra no carro já passa das dezenove horas. O volante comprime seu corpo contra o encosto. Tenta mover a alavanca enferrujada. Empurra-a com mais força e então o banco desliza espaço. Respira com alívio apesar do calor infernal. Acende um cigarro. Trânsito arredio. Encontra uma vaga e estaciona. Pisa no asfalto antes mesmo de se soltar do cinto de segurança. Há uma vivacidade firme na perspectiva que estica o longe; poucos prédios altos, grandes nesgas de céu e riscos de horizonte prescrevendo um espaço empacotado em uma descompassada cadência de buzinas. Caminha prescindindo-se do ambiente que comanda-lhe atenção. Há nele um olhar diferente, de uma precisão que o enfeitiça. Percebe-se possuído por uma indiscrição que quase lhe sufoca. Pedaços de coisas distintas, prestes a surpreendê-lo, assaltam-lhe com instigante veemência. Nas vitrines as ofertas piscam cores. De posse da acuidade aflorando-lhe os sentidos, antecipa um certo rastro a espreita. Calafrio. Sensação de que alguém ronda. Rastros invadindo-lhe o pensamento com pontadas de doçura e violência. Espécie de ansiedade inusitada e de uma falta de lógica que o faz olhar demoradamente os rostos passando por ele. Traga fundo o cigarro e vacila meio tonto. Ouve o chamuscado da brasa fumegando, buzinas, frases soltas, estalos do semáforo, dentes esbarrando em dentes, ruídos nas articulações das pernas. Diminui o passo com o cheiro adocicado de pimenta. Estaca-se enfrente à vitrine de um restaurante. Com a ponta do sapato aperta o cigarro. Na calçada muita gente brota como se nunca mais pudesse estancar. No reflexo da vitrine vozes gesticuladas equilibrando palavras. Todos tão próximos e inacessíveis, ou quase. Quase. Lábios comprimidos. Empalidecidos. Algo incomoda. Mandíbula cerrada com força. Ainda mais nítida a sensação de que uma lucidez ofuscante lhe vigia. Também sente um ímpeto resvalando-se quente por todo seu corpo, acionando carapaças de leveza sedenta por mais leveza. Relaxa os lábios. Parafernália de frases soltas pelas pessoas o atrai, essencialmente à medida que testemunha a desintegração das palavras, precipitando-se em valas logo que perdem o magnetismo que lhes identificam. Um grupo de mendigos empurra um cheiro cariado. Ainda estou meio perplexo com minha morte - dilema que não perdura. Logo agora, como se não houvesse um depois que se segue, afirma-se sereno, de uma consistência que em ondas prossegue-se encharcando-lhe inteiro. Pessoas dentro do restaurante empurram-lhe pelo canto dos olhos. Caminha até a próxima vitrine. Há um timbre de densidade escura pelo ar, assoprando-lhe fragilidade.

Acende um cigarro. Largo fiapo de vento traz letras encontrando-lhe pelas costas, subindo pela nuca, espalhando-se pelo coro cabeludo, despontando-se pela testa. E despencam. Palavras derramam-se ante seus olhos, narinas, ouvidos. Calafrio repuxa-lhe artérias; ouve um grunhido e então vê no reflexo da vitrine uma capa negra esvoaçando até os tornozelos. Vulto com ausência de rosto. Vira-se devastado de curiosidade na direção da calçada onde a pessoa fatalmente deveria estar. Não há nada ali. A sensação ainda está, sei que está. Como se ainda pudesse vê-lo. Pesa-lhe a certeza de estar sendo espreitado tão bem de perto que muitas vezes ouve respiração. Range. Risonha? Algo à beira de uma gargalhada. Mas é algo meio encantado, quase como um sonho. Seu odor inexpressivo é como o brilho de uma estrela que mesmo apagada ainda atinge alguém. Sai dali acompanhando o ritmo dos passos. Saboreia o cigarro em gestos quase automáticos. A fumaça escorrega riscos distorcidos e progressivamente inusitados. Um casal faz cara feia enquanto sacodem as mãos na altura do rosto. Uma mulher avança em sua direção, forçosamente sendo puxada por um poodle. Com estrondosa nitidez recortes de frases incompletas alcançam-lhe. Quatro palavras permanecem vagando em torno dele, chocando-se umas nas outras; palavras visivelmente à procura de um elo que as repouse: corre, siga-me, perigo, você. Para abrupto. Um homem falando ao celular choca seu cotovelo em seu ombro. Pessoas contornam-lhe seguindo rumos. Palavras girando. Você corre perigo, siga-me; remonta dentro da cabeça. Olha frenético de um lado a outro. À procura do corpo que disse aquelas palavras. Palavras que pouco a pouco adquirem mais e mais peso. Termina nos lábios do outro lado da rua, repetindo as mesmas palavras. Uma mulher troncuda, de estatura baixa, cabelos puxados em desalinho e amarrados acima da nuca. Ela se põe a caminhar sem tirar os olhos dos dele. Na faixa de pedestres a mulher atravessa. Por um momento, sendo uma entre um amontoado de pessoas, quase se perdem de vista. Sensação de frio. Ela ressurge. Em seu rosto uma descontração à beira de alarmar-se. Chama-lhe pelo nome. Precisamos conversar. Sussurra. Sua voz é de uma tal límpidez nos tímpanos que todo o resto em torno esfacela-se gasto. Não temos muito tempo, venha comigo. Aurélio a segue de imediato.







pensamentos >>


Seus passos parecem não tocar o chão. Lado a lado avançando-se na direção do carro. Tenha cuidado com seus pensamentos; ela diz. Quando menos espera você será forçado a esquecer-se a partir de seus próprios hábitos. Drible o perigo negligenciando a delineação nítida da imagem que persiste decodificar-se palpável pelos olhos da imaginação. Olhos esticados em fio. Persiga-se; insiste ela. Eu dirijo. Aurélio estende-lhe as chaves do carro. Sua aparência é de um encardido comum àqueles de pele branca que permanecem debaixo do sol por anos a fio. Embaixo do vestido seios afundados e caídos. Para onde?; penso em perguntar, mas ela parece saber muito bem o caminho. Você... Abrupta-se como se não soubesse se deveria continuar. Toca de leve sua mão solta sobre a perna. No semáforo um homem sem bigode encara Aurélio, incisivo durante todo o trajeto em que atravessa a faixa de pedestre. Com minha presença quero assegurar-lhe consistência; murmura tão próxima e ainda com olhos na estrada, com a lateral da cabeça recurvada em sua direção. Muitas das vezes aqueles que despertam-se assim, dependendo do ambiente em que circulam, acabam dando cabo da própria vida. Tamanho é o estado desnorteado e desgastado que suas mentes e corpos atingem. Olha-me nos olhos num relance. Alguns dão cabo da vida de outros. Esfrega as mãos suadas, cruzando os dedos de uma mão na outra no instante mesmo em que reconhece, num quase susto, o local onde ela para o carro. Aurélio acena ao rapaz da portaria enquanto entram pela garagem. Estaciona em sua vaga. Suspira em alívio. O tipo de alivio à beira de um penhasco, como se se agarrasse ao fôlego só para jogar-se na direção oposta ao escuro que se estende íngreme e muito próximo. Helena estaria em casa? O que diria? Acendo as luzes e vou direto para a cozinha tomar água, mostrando-lhe o caminho. Absolutamente ninguém. Vazio. Na mesa da cozinha está o bilhete que pedi a Armando para escrever. Amassado. Durante todo o tempo em que prepara o café a mulher está absorta em seus pensamentos, seguindo-o com olhos melindrosos. Rompo-me em palavras. Porque é que eu não permaneci morto? Brecha; diz aparentemente fatigada. Porque é que eu não me esqueci dos instantes de minha ressurreição? Isso não importa. Não agora. E ele se calou. É quando se dá conta de que o rosto daquela mulher não se desfaz. Há uma cumplicidade entre eles, apesar de nunca tê-la visto. Açúcar? Não. Ela pede um cigarro antes de falar. Aproveita para acender um outro, tragando fundo enquanto ela só olha sem nada dizer. O prazer com que ela engole a fumaça é de tirar o fôlego. Parece que não traga há séculos. Literalmente. Veja bem, intui-se que há um toque limite que nos instiga decidir conforme o chamado configurativo individual. Finco meus olhos nos dela, olhos de um azulado que me ordena escorregar-me para dentro deles. Nós também passamos pela mesma ressurreição que você. Vimo-nos morrer, para num quase piscar de olhos estarmos vivos, pulsando um certo acréscimo de vigor, uma acuidade meio que indecifrável, incessante e, curiosamente, no limiar da fragilidade. Meus olhos viram-se automaticamente para a janela, o mundo lá fora parece aniquilado. Não capta um único ruído. Somos o que os mais arrogantes gostam de chamar de confraria; então cala-se por um bom tempo, enquanto bebe seu café com calma. Ambas sobrancelhas arqueiam-se, e aqueles olhos aguados, vívidos, ordenam-me, contaminam-me vitalidade. Ela arrasta um pigarro para dentro no mesmo instante em que arrepio. É breve, mas uma repentina sensação escura desvia-lhe de meu olhar. Quando nos arriscamos. Ela respira de um modo demasiado silencioso, como se não quisesse incomodar alguém. Anjos. Sim, ele também os possui. Anjos são enviados por ele para desfazer empecilhos. Em outros momentos ele mesmo faz o serviço. Pessoalmente.

Ele?; indaga numa voz atropelada pela saliva acumulada na garganta, atravessando-o antes mesmo que pensasse em perguntar. Engulo o café quase frio. A saliva continua se aglutinando na garganta, pelas cavidades da boca. Desconforto afia fumaça em expirais pontiagudas. Abre a janela. Vento morno vaza forte pelas dobras que compõem seu rosto. Sirvo-me de um pouco mais de café. Ela não quer. Limpa a garganta antes de continuar. Ele tem a capacidade de viajar em muitas das dimensões, muito mais rápido que qualquer um de nós. Eu por exemplo sou a faxineira que o descobriu gelado e duro com a cara no teclado, apertando a caneta com a mão esmagada entre o peito e o papel. Apenas ouço. Ele também é um de nós. Ela apaga o cigarro no cinzeiro e ofega-se, esfregando uma mão na outra, como se o momento de bater em retirada estivesse muito próximo. Desconfia-se que seja o mais antigo de nós, tão arcaico e feroz que desenvolveu a habilidade de ver o que não prevemos, e ainda que ele deseje tocar o que vê, parece se ressentir enraivecido e brutal, absorto em uma histeria que não sabe ou não quer reverter. Ela me olha desconcertada. Devo ser breve.

Ele. Ela tenta sorrir antes de continuar, mas só consegue mesmo rasurar uma sensação que não está ao alcance de sua face. Passos de um sapato de salto agudo tiquetaqueiam no andar de cima. Seu poder é tão terrível quanto limitado; sussurra. Algumas gotas de suor escorrem pelas minhas costas. Riscando a camisa. Eu não compreendo, ainda assim tudo me soa tão lógico quanto o liquido quente que desce pela garganta. Em uma espécie de transe ela altera a voz. Em uma de nossas últimas investidas descobrimos que a nossa função é fazê-lo perder o medo de ser olhado. Seu medo é tamanho que sua força em equilibrar-se é bestial. Ironicamente sua existência depende de nossa ousadia. Minha respiração encurtando-se progressiva. Estamos sempre descobrindo o que ele ainda não lembra de si mesmo. Ou não consegue. Ondas de calor manifestadas em torno da mulher adquirem-se frenéticas. Cores trepidando-se arredia. Arriscamo-nos um pelo outro; diz em tom de sutil suplica. Tremor acentua-se progressivo em sua carne. Quando você ouvir um silêncio medonho à beira de ecos em ruídos asfixiados é porque ele está próximo. Sua voz já não é retilínea, mas repleta de altos e baixos retirando-lhe por completo o imponente aroma que o fisgara anteriormente. Ela sacode a cabeça enquanto um som contínuo de descontrole devasta-lhe a garganta, espatifando-se pelas paredes da cozinha em outras tantas entonações, que ao se encorparem em um único som propaga-se num uivo de petrificar. Cai contorcendo-se. Pernas entortam-se debaixo da mesa. A mulher assemelha-se a uma marionete controlada pela ferocidade abismal de um tufão. Debate-se em convulsões fissurando-lhe a pele nas dobras da cerâmica. Ouve-se com horror o ruído de seus ossos amaciando-lhe a carne. Sua xícara espatifa-se ao lado de seu rosto desfigurado. A tradução de seu grito não é dor, ou até poderia ser visto como tal, mas algo naquele inferno afirma que ela está sendo arrancada à força de um lugar que escolhera estar. Sugada, desconectada a ponto de ter as ondas cerebrais desorganizadas. Gagueja seu próprio berro e, quanto mais perde o fôlego, mais e mais cospe sons cada vez mais hediondos. Espremo-me contra a parede. A mulher se contorce como uma minhoca solta no cimento. Em meio ao uivo letras soltas não chegam a agrupar-se ordenadamente. O esforço que ela empreende para manter-se concatenando letras que possam fazer algum sentido é assombroso. De súbito uma frase brota-se por sobre a selvageria de sons. Já sabemos que ele nasceu no Século XIV e que matou... Ela é tragada a um incisivo desvario corpóreo. Tive medo de olhar. A miséria em seu rosto é o diabo. Súbito mumifica-se toda encrespada. Torta e espatifada. Silêncio desfigurado pelo zunido da lâmpada acesa. Ruído da geladeira.

Estático fica.

Há um certo hálito em torno. Cheiro de poeira mofada. As palavras vieram de alguém tão vivo quanto Aurélio. Dá um passo alarmante em sua direção e por um instante acredita vê-la pular em sua direção, apertando seu pescoço como se em convulsões segurasse algum objeto flutuando enquanto afunda em pleno Oceano. Sem pulso. Permanece ajoelhado ao seu lado durante um momento. Madrugada despenca pela janela. Vai até o quarto e se senta na beira da cama. Uma corrente de ar estala a porta como se a trancasse. Toma banho. Veste a mesma calça. Enquanto dá passos para a cozinha se pergunto se realmente encontrará um corpo estirado no chão. Mosquitos zunem em torno do café derramado debaixo do cotovelo avermelhado. Arrasta cadeiras. Interfone toca. Cautelosamente carrega seu corpo até o carro sem que ninguém o veja, colocando-o no banco traseiro. Antes de virar a esquina vê Helena pelo retrovisor. Fica com a impressão de que ela também o viu. Segue enfrente. Distancia-se dali precipitando-se pelo caminho que empena-lhe rumo. Atravessa a cidade até chegar em um bairro de ruas esburacadas, luzes fracas nos postes. Vento frio de uma madrugada com nuvens varre o cheiro de cinzas de cigarro. Fecha a janela até poder acender um cigarro. Deixa uma brecha. Olha pelo retrovisor e um incômodo contrai-lhe os músculos. Algo avançava em sua direção. Farejando presença. Chega a detectar uma espécie de silhueta humana. No céu as nuvens atraem-se umas às outras. Preenche a cabeça com memórias de criança, a correria no trabalho, Armando segurando um livro aberto enquanto pedi dinheiro, sua mãe trajando em seu funeral o vestido vermelho que ela mesma escolhera, Helena lavando meticulosamente as alfaces. Não permanece por tempo demais em cada imagem, pula repentinamente de uma memória a outra, enveredando-se continuamente por vielas inusitadas. Deste modo a pontada desse cheiro que se aproxima parece desvencilhar-se de Aurélio consideravelmente. Ainda que veloz e sagaz o suficiente para retomar-se próximo. Encontra um desvio e fica quieto.

Estaciona o carro embaixo de uma árvore. Rua escura sem que se aviste seu fim disfarça os detalhes das casas. Carrega o corpo até a entrada. Porta entreaberta. Com a mulher nos braços entra. Duas gotas de suor escorrem velozes pela testa, lentamente envergando-se pela curvatura que vai dar na ponta do nariz. Coloco-a no sofá. Segue pelo corredor enxugando o rosto com as mangas da camisa. Na cozinha sacos de supermercado cheios de compras soltos pela mesa. Dentro da pia duas cenouras e um tomate. Faca solta. Pela porta escancarada da geladeira esvazia-se ininterruptamente a única iluminação do recinto. Encontra sua bolsa dependurada na cadeira. Dentro da carteira somente um papel amassado chama atenção. Observa longamente a carteira de identidade, depois guarda tudo na bolsa. Com exceção do papel amassado, onde há algum nome e telefone. Solavanco de imagens lhe sacode; baque fundo que não distingue com precisão. Enruga a testa tentando conter arrepios de medo escalando-lhe pelas costas. Intui ser ele insistindo em se solidificar nítido. Furiosa náusea recurvando Aurélio de boca aberta e com ânsias de vômito embaça a imagem. Apóia-se exausto. Toda a sua pele arde terrivelmente. Há um combate em mim. Imagens delineando-se visíveis no mesmo instante em que embaralham-se. Sai dali tropeçando. Tenso. Pelo canto do olho vê o corpo da mulher. Neste ínfimo espaço de tempo, enquanto cambaleia até a porta, avista um animal com porte humano segurando-lhe em pleno ar. Garras fincadas na carne, remexendo-lhe os olhos com o focinho, arrancando-lhe os lábios e a língua com dentes enegrecidos. Mão escorregadia. Chega a acreditar que jamais conseguirá girar a maçaneta. O trinco à beira de desatar-se. Expulsa-se dali tal e qual um animal acuado. Rua deserta, de um silêncio sepulcral. Recupera-se da tempestade no corpo com rapidez. Gira a chave na ignição. Ainda ofegante. Rugas em torno da boca. Azeda. Acelera em retirada enquanto repete seu nome; Maria do Carmo, Maria do Carmo, Maria do Carmo. Maria do Carmo. Diz o nome em voz alta para espantar o frio arrepiando a espinha. Aperta a mandíbula. Ouve os rastros que seus neurônios são seduzidos a decodificar; ansiedade retesa-lhe os pulsos. Na fenda que o farol do carro ilumina Aurélio vê uma coruja. Olhando-o direto nos olhos. Um gemido uivado de mulher risca um gosto de sangue pelos tímpanos. Engasga uma tosse arranhando-lhe a garganta. A coruja sacode enormes asas, pulsando-se estonteante por sobre o carro. Quase sorri, extasiado com a eloqüência imponente com que vai em sua direção e então some.







chama >>>


Quando a tarde vai pra algum lugar. Escorrega nádegas e costas no banco de escuro azul duro. Vira-se aturdido para o assento vazio ao seu lado. O destrave em seu rosto é demasiado expressivo. Profundas rugas de tensão em torno da boca. Vontade me chama?; sussurra-se. Ruído veloz vindo do lado de fora do ônibus chacoalhando-se pelas esquinas abarrotadas de gente sincroniza-se com a insistente pergunta que lhe mergulha num mundo quase indizível. O semáforo avermelha-se bem no instante em que a última palavra enfia interrogação. Na fila de bancos da esquerda um rapaz olha-o com uma expressão de afronta. Imitando um rosto absorto em olhos parados, lábios despencados como que anunciando em breve e a qualquer instante um amontoado de saliva escorrendo. Lenta pelo canto da boca. Ele tem o impulso de acender um cigarro. Esfrega uma mão na outra olhando pela janela. A mulher ao lado, do outro lado do corredor, parece olhar em sua direção, mas os olhos dele fixam-se pelos riscos humanos que quase não deixam formas. Seus dedos ardem eletrificados. Fissura alarga-se dentro de seu corpo, anunciando uma tempestade que vem chegando de alguma distância. Neste rasgo fenda se desata.

O ônibus diminui a velocidade. Uma senhora de bengala levanta-se e desce em passos curtos os três íngremes degraus. O que está acontecendo? Esse homem ali sentado no duro banco azul encardido fica atônito diante da vontade avassaladora que lhe infla potência. Ontem mesmo. Por Deus, afinal foi ontem mesmo que disse sim ao chamado. E novamente hoje a vontade já ordena-se presente? Não pode ser, não pode ser; repete. Repete tantas vezes que o eco dentro da cabeça se confunde com as repetições que bem agora murmura. Ele sempre tem uma trégua de no mínimo cinco semanas após as mortes. Foi ontem que ele afundou um pescoço e já hoje o ardor lhe assanha. Passa os dedos da mão no ante-braço direito, encima do arranhão que o braço esbaforido com mãos em garra expôs-lhe. Levanta-se com a esquisita sensação de que todos lhe observam. Desce os degraus tentando disfarçar gestos ofegantes. Enterra as mãos nos bolsos da calça. Não tem coragem de confirmar se as pessoas dentro do ônibus seguem-lhe com os olhos.

Atravessa o jardim com pressa febril. Destranca a porta atropelando a brecha que se faz. Vento agitado tinge rapidamente o céu de cinza. Ainda assim é visível a cor vermelho carne crua da cortina. Por um momento permanece encostado na parede, apertando a boca do estômago. Risca a sala indo direto para o quarto. Mergulha para dentro das cobertas tentando despistar o vulto que pula veloz de um canto escuro a outro. O desejo expande-se como nunca havia sido tão voraz. Ele pode quase tocá-lo, dentro e fora dele mesmo. Qualquer junção de palavras esticando-se à tona parece insuficiente. Uma visão adocicada de naftalina escorre narinas adentro, avermelhando o sangue de calor. O naco esponjoso incha. A única claridade é a lua refugiando-se pelo chão ao pé da cama. O desespero, de início, estica-se agudo como a ponta de uma faca curiosa riscando-lhe os tímpanos, chamando-lhe pelo nome com uma doçura envolvente. É absolutamente inútil recusar-se à sedução da voz estendida em sua direção, sobressaindo-se de dentro de uma capa de escuridão. Sua pele inundada de suor, carne dolorida e a cabeça latejando essa imagem inusitada que se encorpa num abraço apertado. Cada vez mais e mais difícil desvencilhar-se. Ele assemelha-se a um corpo morto de tão intacto e quase mudo. Encolhido na cama. Suas mãos sedentas pelo atrito pegajoso, pelos lábios fugidios; enquanto que um outro lado seu tem as pálpebras apertadas grudadas no teto. Um presságio em sua respiração funda uma vez mais sorri-lhe aqueles olhos elevados de catarata grunhindo horror tapado, aquele corpo flácido e enrugado em um formato contorcido, aquele tremor atônito. Abraça-se debaixo do cobertor. A vontade de afagar é demasiada imponente, a ponto de lhe ameaçar a própria respiração. Rende-se intacto. À medida que o tremor esvazia-se dele, o timbre que vinha vindo ao longe aloja-se ali, em doses homeopáticas. O característico aroma das idosas molha-lhe os lábios. Quanto mais aquelas velhotas afastam-no com suas mãos frágeis e manchadas, mais persistente é sua ânsia jogando-se para dentro de suas pernas inertes. O prazer que sente a cada esvaziamento de forças da vítima atinge tal exuberância que por um instante acredita estender-se além topos celestes, atestando-se em um gosto intensamente vivo. Um prazer tão sublime que purifica-se de toda e qualquer culpa e susto perante o rosto retorcido, desfigurado a ponto de quase apagar definitivamente qualquer traço humano. Mãos amarradas na cabeceira da cama. Pulsos brotando gotas avermelhadas. Quando a vitima atinge o momento em que parece ter desistido de se debater em fuga, carinhosamente, na medida em que aperta-lhe a garganta, penetra-lhe uma vez mais. Mordisca-lhe a pele, lambe-lhe o suor da face, das sobrancelhas, beija-lhe as pálpebras. Olhos escancarados à beira de um despencar de suas órbitas; em muitas das vezes ponta da língua endurecida por entre lábios arroxeados. Ele permanece com a cabeça em meio aos seios murchos até adormecer, degustando o calor que acresce-se nele à medida que testemunha o lento gosto em sua boca dispersando-se. É o momento em que inunda-se de uma agradável sensação de sonho. Sucessivamente sempre essa mesma sensação. Apesar de; balbucia ao afastar-se da cama que aninha pedaço de carne fria. Caminha pela cidade, toma cerveja. Desperta aflorando-se em uma calma que lhe reluz consistência em meio ao quotidiano afora por dias e dias. Pelo menos até agora. Até poucos instantes antes do Sol descer. Invariavelmente não mais que quase dois meses. Neste período sempre acaba acreditando que o chamado enfim cessará. Definitivamente livre da energia que lhe fisga com arrogância. Chega inclusive a arquitetar planos de constituir família, comprar carro, convidar amigos pra jantar, voltar para a faculdade, reunir-se duas vezes por semana para jogar baralho. Nos dias em que a voz rebusca seu retorno ele adquiri uma inquietude que é facilmente detectada em seus gestos. Cedo ou tarde um dedo em riste ondula-lhe ordens com a ferocidade dos que desejam ardentemente extinguir a sede, o estômago retorcido de fome. Vem chegando em doses breves. Nunca como dessa vez, assim tão abrupto. Mas agora já está adquirindo a mansidão tão característica aos que desistem de lutar contra um alicerce que parece enxertar equilíbrio, e embaçar aquele arranhão no peito que está presente tantas vezes quando se vê perante o inusitado. O diferente.

Levanta-se. Coloca uma música. Apara as unhas. Toma banho. Escova os dentes. Perfuma-se. Veste a camisa laranja. Penteia o cabelo. Toma dois copos de água gelada. Apaga o cigarro. Antes de sair olha-se no espelho da sala. Seu rosto está ali, mas é como se um outro alguém o enxergasse de frente. Não há carne por trás do sorriso. Ouve rastros cercando-lhe dentro do espelho oval. Empertiga-se. Ajeita o cabelo e sai pela porta. Caminha com os passos.







quero >>>>


_ Me dê um pouco mais.

_ Pra que?

_ Eu quero.

_ É perigoso querer o que não é seu – diz malicioso. Sem falar que já estou sem grana e que esta branquinha vai fazer falta no fim de semana. Mas não é só isso, você já não agüenta mais.

O sol anuncia um calor esquentando-lhes timidamente as faces. O companheiro de Armando faz uma careta de gozação e lhe dá um beijo nos lábios antes de se por de pé. Aperta a campainha enquanto Armando guarda a trouxinha no jeans. Descem do ônibus dando empurrões um no outro.

_ Tem certeza que não tem grilo algum eu dormir na tua cama?

Armando permanece em silêncio. Olhando-o com olhos riscados.

_ Está um frio de merda. Vamos nos esquentar a manhã toda.

Sorriem-se enlarguescidos de contentamento. A rua estica-se deserta. Vamos caminhar um bom pedaço; reclama Paulo.

_ Pense no calor que te aguarda.

Diz lambendo-lhe a ponta do nariz. Sensualidade na face de Armando desaparece, arrancada em um único empurrão. Vira o rosto alertando-se ao incomum. Faz uma pausa como se devesse se lembrar de algo; retorna ao compasso dos passos tentando decifrar a ansiedade que lhe impregna. Sensação esquisita esparrama-se pelo ambiente. Parece estar em qualquer lugar. Pela primeira vez este algo espinhento lhe envolve com tamanha falta de pudor que parece impossível encontrar estratégias onde encontre domínio sobre si. Lança olhos nervosos por cada canto do trajeto. Brisa de murmúrios indecifráveis embalsama-lhe. Algo sonda-os bem de perto, movimentando-se à espreita entre as árvores, os muros, os postes, os tijolos, as fracas e pesadas sombras, as janelas. Pássaros sem revôo. O vento destitui-se até mesmo de sua função menos arredia. Os galhos das árvores, as folhas petrificadas. Os dois caminhando pela calçada deserta. Ruído vagaroso escoa pela curva mais íntima de seu ouvido.

_ O barato desse pó está me tirando do sério.

Armando não acredita em uma única palavra do que acaba de dizer, mas o diz como estratégia, esperando que seu companheiro lhe convença de que todo aquele mal-estar é apenas efeito da droga. Paulo observa Armando com assustada curiosidade. Não é comum vê-lo com esses olhos errantes.

_ Você está me deixando nervoso. Fique calmo gato. Só pode ser algo nessa merda.

Em alguma dobra bem próxima alguma coisa vasta de ânsia se arrasta febril. A cada passo com mais e mais convicção Armando sabe que essa força que lhe angustia até o mais escuro fundo de seus ossos segue-lhes a respiração. Soergue-se empedrado. O atrito que se faz anima uma faísca dentro de Armando, multiplicando-se na mesma proporção em que esse rastro espalha-se dentro dele. O peso de um timbre arcaico sopra de leve pelas rachaduras dos troncos das árvores. Há desejo e prazer neste ritual de aproximação. A específica configuração que se expande em seu corpo impede-lhe de completar em detalhes a visualização do algo que lhes rastreia. Quanto mais detalhada a imagem se define dentro de sua cabeça, mais palpável a miragem se fixa. Como raízes que vão devastando a terra em busca de umidade, o medo irrompe-se sorrateiro para a superfície de Armando. Na imagem anuviada ele acredita ver um animal de grande porte caminhando com as patas traseiras; sente o cheiro parado de grutas lacradas, animais rasteiros, rochas gotejando-se endurecidas. Avista o apartamento bem próximo, mas o calafrio não se extingue um ínfimo sequer. A coisa já dera largos passos para dentro de Armando. Ambos se metamorfoseando. Rastro em vantagem.

_ Você não vai cheirar isso nunca mais. Se você pudesse ver o seu rosto.

O caminho pelo qual tropeçam-se espicha-se interminável. Cada ínfimo grão de instante reclama atenção. Grande parte do incomodo vem de uma exigência que não se revela; impalpável até mesmo pela imaginação, mesmo enquanto o rastro esquadrinha-se numa espécie de ser com dois pingos avermelhando-se intensos na altura dos olhos. Armando contorce-se bruscamente. O algo zomba de tudo, diverte-se com a atmosfera de suplica e ansiedade que incita. Armando não se contém e chora em soluços ofegantes. Sabe que algo o arrasta. De um peso inflexível que está prestes a romper-se. Súbito sente-se atraído pela maneira de uma espécie requintada com que aquilo lhe entremeia. A sombra de uma ave esbarra-lhe os pés. A coisa espia, à espera de um sinal que lhe consinta apossar-se cada vez mais de seu calor. Armando vasculha-se em busca de força suficiente capaz de despistar a fome daquele olho inexistente que os lacra. Paulo esparrama as lágrimas com as palmas das mãos, puxando-o bem próximo de seu hálito. Armando encontra-se hipnotizado de fascinação mórbida pela persistência da criatura que ludibria, incorpora-se às leis cósmicas com tal acidez a ponto de atingir autonomia perante as imposições do tempo e do espaço. As nuvens juntam-se anunciando a aparência do cheiro seco. Paulo beija-lhe os lábios; demorado e molhado. Saliva reage umidade alargando-lhe de energia. Armando recobra potência nas juntas do corpo; articulações fisgam-se em pontadas arqueando um vivo que alastra-se. Apertam-se forte. Rastro recua, como criança assustada que não compreende o repentino empurrão.

Por um momento permanecem abraçados, com tamanha ferocidade nos lábios colados que o ar que lhes mantém estendidos é o mesmo. Acho que vai chover; acrescenta Armando erguendo-se com Paulo pelos passos. Nuvens aconchegando-se em uma única carapaça acinzentada. Pelo rumo seus olhos caídos, cobertos até a metade, rastreiam cada ínfimo instante ainda restante até que cheguem em casa. Armando inflando-se de uma resistência mais consistente que antes. O assombro não está tão enfiado dentro dele como antes. Ainda que não o procure, ele sabe. Sabe que Rastro está espiando. À espera do descuido.






respirar >>>>>


Sorrir é proibido. Foi o que acreditou ter ouvido no rádio. Aquela frase não encaixa, e ainda assim tem certeza tê-la ouvido. Respira fundo, inundando o pulmão como se se arremessasse contra um escudo. Desliga o rádio. Sorrir é proibido; a frase se repete à deriva, chamando por alguma coisa que vagueia sem conseguir comungar-se em palavras. Sente dor aguda nos tornozelos. Acende o cigarro, então vem cheiro de enxofre. Olha aturdido pelo retrovisor. O carro segue por uma estrada de terra. Seus olhos ardem com a poeira que os raios solares, ainda sem a face do Sol, alaranjam. O rastro de poeira indica um carro seguindo para dentro da floresta. Pedaço de melodia anônima escapole de sua boca quando um fiapo do circulo solar mina no horizonte. Sopro primitivo, um suspiro de desejo encarnado perante o impulso de umidade quente que fermenta o vivo. Cheiro de mato rodopiando-o para seu de-dentro; no encalço um cisco distinguindo-se escuro, exigindo-se, cintila um repuxão recurvando a direção da visão. Em meio ao desconforto descortina-se uma casa surgindo ao longe, entre emaranhados de galhos e folhas. Árvores esvoaçadas pelo vento vindo de longe, ainda carregando a umidade de algum Oceano. Estaciona. Consuelo; repito para mim mesmo enquanto retorno o pedaço de papel para dentro do maço de cigarros. O gramado na frente da casa denuncia um carro recentemente estacionado. Caminha como se não pensasse em nada. Os degraus estalam com o peso. Cadeira de madeira. Plantas de vários espécimes espalham um verde fresco pendendo do teto. Pelo chão. Gira a maçaneta e empurra a porta com as pontas dos dedos.

Pelo telefone Consuelo já sabia do que se tratava. Eu também morri, disse já de imediato, encurtando caminho. Venha me ver agora mesmo, o mais rápido que puder. Ele sabe que você vem. Sem pestanejar segue em direção ao norte. Duas horas depois lá está ele, com o pé esmagando cacos de vidro de um porta-retrato caído no chão. A sala em desordem. Uma luta foi travada ali; flores silvestres esparramadas por uma poça d’água ao lado de um jarro partido, livros espalhados e abertos ao léu com folhas dobradas por marcas de sapato, móveis enfiados pelos cantos. No corredor, ao invadir o espelho de um lado a outro, tem a impressão de ouvir Armando. Sente aconchego. Logo em seguida uma sensação de ansiedade empoleira-se em Aurélio. Procura conforto olhando-se de frente. Ao fundo de minha imagem que observa-me pelo espelho pressinto um vulto movimentando-se dentro do minúsculo instante em que nada vejo, ao piscar. No fim do corredor uma fresta de luz anuncia o quarto. Alguém em casa? Caminha como se uma multidão de seres erguesse seus passos; de algum modo eu não quero continuar, quero desistir de tudo isso, ser o homem de antes e pronto. Consuelo; chama alto. Algo me diz que ela não sabe me ouvir. Responder exigir-lhe-ia a possibilidade de estar viva. Tremelica. Luz clareia abandono. Uma senhora em seus quase sessenta anos, nua, retorcida sobre o lençol. De um desalinho caótico. Braços atados à cabeceira da cama com o que parece ser o cinto de um roupão-de-banho. Longos cabelos ruivos enfiados para dentro da boca escancarada em grito vibrando horror parado. A amargura em sua expressão é um abraço maldito. Covas rasas de um púrpura parco demarcam-lhe o pescoço; mordidas afundadas pelos seios, bem encima do umbigo, nas pernas. Sua face declara surpresa diante da morte, provavelmente pelo modo como se instalara. Tudo no quarto recende animalidade.

Ele atingiu-a antes. Grito confinado incha-se até o gargalo de sua retina. Contorna a cama. Toca o fraco calor do sol na curva que leva à nuca. Sente um ódio grotesco expulsando a tristeza medonha que inicialmente apossa-se dele. O que teria ela para dizer? Nem sei mais o que pensar; pensa. Tempestade cai repentina, ventos contraditórios sacodem as árvores com fúria. Os galhos retrucam enraivecidos, afugentando o tédio que bóia superficialmente pela floresta e pelas rochas montanhosas ao longe. Aurélio reduzido a um pedaço de coisa inerte e sem o menor poder de ação, por mínimo que seja, em contribuir com o movimento que se faz. Qualquer gesto seu dá a impressão de ser tão inequívoco quanto inútil. Qualquer gesto. Olha em torno e não assimila indício algum que possa ao menos insinuar escapatória. Estica-se dolorido. Exausto. Permanece parado olhando para fora. Por trás da janela cai chuva solta e pesada, esparramando-se ligeira pelas brechas. Cutucando escoamento. O corpo; o corpo; o corpo tocando-me pelas costas. Contrai os músculos da perna. Esqueceu o maço de cigarros dentro do carro. E agora? E agora? Pelo lado de fora a visão de um homem deformado pela chuva escorrendo pela janela. De súbito uma voz organiza-se em uma concatenação de palavras - a voz de Consuelo retumba como o corte que projétil demarca na carne. Distante bem próxima de ti eu ainda posso senti-lo. A falta de um corpo, em uma situação demasiado palpável, deixa-lhe mudo. Fica constrangido por não saber o que dizer ou perguntar às grossas gotas de chuva enervadas em risco. A voz de Consuelo chega até Aurélio como o som de um rádio ainda não sintonizado, ora precisa ora chamuscada de distorções. Não se esqueça de ser exatamente aquilo que você nem sabe que é. Na floresta insetos enrolando-se uns nos outros, embolando-se com a água que escorre. Caminha pelo quarto com as costas para Consuelo. A janela em convulsões. Na parede, logo acima das mãos amarradas, palavras de traz para frente, escritas com o que parece ser batom vermelho. Pelo espelho, então, lê-se eu te amo. Guarda-roupa com portas escancaradas; dentro dele um gato branco morto, com o pescoço pendendo para fora. Roupas amarrotadas pelo chão. Olha Consuelo de relance pelo espelho. Ele não pode atingir nenhum de nós pessoalmente até que uma importante peça de seu enigma torne-se evidente. Ouvir Consuelo, ser invadido pelo calor que sua voz provoca, causa-me palpitações. Estranho acoplar o som ao rosto repuxado de pavor. No meu caso ele enviou um de seus anjos. Quanto mais ele dificultar, e ainda assim o desejo permanecer naquele que precipita-se a ele, maior é o prazer e a curiosidade perante a carne que o fisga. Um gosto amargo de perda incomoda. Consuelo faz uma pausa; posso vê-la olhando-me pensativa antes de continuar. Rastro reconhece que aquilo que lhe alimenta é exatamente o momento em que um pedaço de seu enigma é desatado. Esta aproximação parece tão inevitável como necessária. Basta que o movimento de nossa parte seja dado para que enfim ele ressurja bestial ou manso. No chão avista uma foto: Consuelo sorridente ao lado de um homem. Na penteadeira ‘O Pequeno príncipe’ aberto na página trinta e sete. Uma frase olha-me: ‘Como pode ele reconhecer-me, se jamais me viu?’. Alça a foto, anota estas palavras da parede em seu verso, guardando-a dentro do bolso da camisa, contra o peito. Aurélio visivelmente dilacerado e insistentemente enovelando-se de resistência. Consuelo permanece em silêncio por um momento. Revele-se a si mesmo, uma hora ou outra revele-se. Não se desvie de nenhuma sensação por mais estranha que possa parecer; os caminhos desenrolar-se-ão contigo.

Relâmpagos são senhas que escancaram de vez os portões que aprisionam grande parte da chuva ainda retida. A ponta de um relâmpago faísca-se em palavras que continuam a jorrar – Investigue-o. Há umidade dentro dele. Acredito que esta saliva provoque infiltrações pela carapaça. Vulto entra pelas frestas da casa, esquadrinhando-se pelos cantos. Consuelo suspira em uma espécie de afronta e articula palavras como se escarrasse. Ele está diante de mim; suas palavras articulam-se à beira de um tom que não parece ser dela. Silêncio de morte. Seus olhos grudam no eu te amo. Um triunfo grotesco desata-se por todo o ambiente. A tempestade estanca-se repentina. Eu sei que é pelo inflexível medo que forma-se vida; Consuelo parece delirar. Uma rajada de vento trinca a janela. Depara com o focinho e os olhos negros de um rato, espreitando pelo escuro do corredor. Convulsão de sons destituídos de significados arrasta a respiração de Consuelo. Pelo reflexo inexato na janela pode vê-lo estraçalhando-a; garras cavoucando-lhe o pescoço, arrancando-lhe as artérias com os dentes. O cheiro de ambos impregna-o por dentro. Os olhos de Consuelo permanecem grandes e assustados. Aurélio não consegue se mover, pés enrijecidos diante da voracidade e do hálito podre que a morte desata no corpo, pelo ambiente. Sai do quarto sem olhar para trás, quase atropelando o rato que corre para debaixo da cama. Deságua pelo corredor em direção à porta de entrada, imaginando ratos subindo pela cama, seguindo o aroma que lhes ordena devorar afoitos cada pedaço de carne submissa. Se permanecer um segundo a mais aqui não saberá como desatar os joelhos. Cambaleia até o carro. Dá ré derrapando pelo gramado. Acende um cigarro. Quando olha pelo retrovisor, observando a casa que se afasta, tem a nítida impressão de que não está só.







açoite >>>>>>


Ele chegou em casa pouco depois que a chuva tornara-se um açoite gélido em seu rosto. Abre as cortinas cor de carne. A claridade não é suficiente para espantar o inusitado incômodo em seus olhos. Desvia-se da imagem oval em ríspidos movimentos estilhaçados. Saliva no dedo, esfregando-o sobre duas minúsculas gotas de sangue endurecidas na face esquerda. Na TV o jornal encerra-se anunciando uma frente fria aproximando da região; no programa seguinte uma loira sorridente dá dicas de como se vestir bem neste repentino inverno molhado, em seguida entrevista um cantor gordo de ombros duros e braços esticando mãos enfiadas entre as pernas, e quanto mais ele enrijece-se mais e mais ela gargalha dizendo: relaxa, a gente só convida amigos, meu Deus, esse seu medo é muito engraçado; repete a loira encarando a câmera. E gargalha ainda mais. Depois ela prepara um bolo de chocolate que lhe dá fome.

Durante seis anos ele esganara e estuprara velhinhas quase que anualmente. Nesta época ele vivia com a mãe. Certa vez ela o seguiu passo a passo. Ao entrar foi aquele sufoco, perfuração nauseante. Vivenciar asco no olhar da mãe atormenta-lhe profundamente. Naquela tarde acertou o jarro de metal em sua face repetidamente, estuprou-a diversas vezes após tê-la esganado com uma ira incontrolável, mantendo os dedos afundados em seu pescoço até o escuro da noite esvaziar o calor da carne murcha. A última lembrança que tem de seu rosto é um sorriso, tomando seu café, antes de sair, naquele mesmo dia, para responder ao chamado. Um sorriso sorrateiro, isso sim. Desde então a vontade de matar vem em impulsos cada vez mais regulares, de seis em seis meses, de dois em dois meses. Agora seria um impulso diário? Fosse como fosse ele se sente como se um certo sopro tenha devastado a maior parte das barreiras que atravancam o processo que comunga consistência periódica ao seu impulso. Uma aceleração continua a aglutinar resistente o despedaçado em seu fundo. Ainda assim, de algum modo, depois deste último crime, acredita que não mais a vontade lhe tomará o rumo. Locomove-se quase distraído, e de súbito dá-se conta de si mesmo, e então sorri. Tem tanta certeza disso que assovia; e não porque a vontade dissipou-se, mas sim porque ele se sente resistente o bastante para resistir. Enquanto prepara o misto-quente desperta-se latente para os ruídos do dia; estar na realidade lá fora não mais lhe aciona uma certa falta de honra esmagando-lhe os membros. Uma fumaça quente escapole da mordida. Mastiga demoradamente. Entorna grandes goles de chá gasoso. Afunda-se na poltrona enfrente à televisão. Todos os indivíduos são parte de uma grande família, à espera de uma conexão que ele deseja ardentemente participar, equilibrando-se pelas intimidades. Sua configuração anuncia-se vibrante, sem inquietude ou culpa, mas sim alegre por ter os dias pela frente. Impacienta-se vibrante com a idéia de que, apesar daquelas situações que levaram-lhe a conhecer o inferno durante tantos anos, agora chegou o instante de estender-se no mundo com maior propriedade de si, sem medo de ser olhado. Uma ansiedade encarnada. Ânimo para o trabalho ressurge-lhe alegria incomum; de repente percebe que o dia já não lhe parece difícil de ser atualizado. Liga para o trabalho e diz que chegará atrasado

Canta debaixo do chuveiro: “Preciso não dormir/ até se consumar/ o tempo da gente...”. Esfrega as axilas assoviando com fervor. Estende-se em uma única perna sem titubear enquanto esfrega entre os dedos e a sola do pé. Parece um pássaro recentemente solto da gaiola, todo deslumbrado com a amplitude, ainda mais com a coragem de manter-se em locomoção pelo ambiente sem que este o iniba paralítico ou com a vontade do cheiro de naftalina. Enxuga-se sem se incomodar com o frio. E mais do que nunca desacredita pertinência inequívoca ao sangue. Coloca a cueca branca que lhe realça as grossas cochas. Decidi-se pela camisa cor salmão e gravata verde musgo. Arrisca uma maneira diferente de pentear o cabelo. É então que se desanuvia o sonho que tivera enquanto dormira contra o corpo da mulher ruiva. O sonho ressurge ainda em uma sensação de vultos e vozes desconexas. Algo naquele emaranhado chama por ele. Uma sombra confundindo-se com o ambiente do sonho. Há perfume de mulher. Atravessa a entrada arrumando o cabelo em movimentos quase automáticos. Fecha a porta à chave. Aciona o guarda-chuva e num passe de mágica essa mulher inscreve-se nítida em sua mente, sem face, mas de uma acuidade de gestos, modos de caminhar, sentar-se, inclinar-se levemente para a frente enquanto presta atenção em quem lhe diz algo, para depois recuar-se antes de falar. Vibra com seu timbre enraizando-se a partir do umbigo. Quase gargalha descontroladamente com a sensação palpável da voz daquela mulher. Soergue-se pelo compasso dos passos; desvencilha-se em meio à compacta multidão que aos poucos encorpa-se. O dia inundando-lhe satisfação, delicioso desfrute em respirar o ar quase frio. E um calor perfumado que esse mesmo dia promete com tamanha veemência que parece-lhe inevitável encontrar o amor de sua vida.







lampejo >>>>>>>


Mulher. Seus olhos estatelados têm cor de poeira; um corpo arcaico e intacto, à deriva pelo de-dentro do escuro sem um minucioso vão, por tempo suficiente para que a poeira tenha se encorpado grossa, à beira do insondável. Profundos cortes na carne entupidos de sujeira e insetos tornando eloqüente o terror torto da boca; pescoço enrugado de rigidez, enterrado em ombros enfiados para dentro. Diante do rapaz de coração batendo forte um grito medonho, um repuxo de corpo que se debate na ânsia de reter um pouco mais de ar, catalogado em uma pose engarrafada. Fatia grotesca dentre os instantes de uma queda. Ao redor da cabana um silêncio voraz. O rapaz não retira os olhos da mulher, mas sabe que encontra-se dentro de uma cabana, e que outras cabanas espalham-se a uma certa distância, em torno. Próximo ao corpo há uma cama, uma mesa de pernas para o ar; copos, pratos, jarros de barro espatifados pelo chão. Um machado com lâmina arredondada respingada de escuros rugosos. Cada pedaço de coisa atestando uma vida rudimentar. Antiga. Pela janela fagulhas de tochas bóiam pelo negrume da floresta. Cães ganindo, com latidos de pescoços engasgados pela voracidade com que arrastam homens segurando coleiras. Súbito um menino pula de um canto escuro. Espirrado de sangue. De sua boca sai um beijo de agulhas cintilando-se velozes na direção do rapaz. O sopro pútrido aciona calor em torno do rapaz; as agulhas sacodem-se contra a membrana quente e caem perfurando o solo. De repente não há mais cabana, somente o corpo, o menino e o rapaz. Uma rachadura em ziguezague rompe-se em torno de seus pés. Antes que as duas pontas pudessem completar-se numa junção, começo e fim do nervoso traço, fechando o círculo de batidas cardíacas, o solo afunda. Vagarosamente pedaços de seu corpo são sugados para dentro do vão que agora é um fio negro.

Armando acorda abrindo os olhos. Seu corpo tremelica suado. O lampejo de uma capa escura roça-lhe a face. No teto surgi-lhe a imagem de uma sensação, a de estar diante do mar à noite, e um medo de nunca mais ouvir o dia. A mesma falta de ar que lhe travara a garganta na calçada está ali, em algum lugar, em qualquer lugar. O incômodo diabólico é tinta nas paredes, lâmpada apagada, seus livros na escrivaninha, cheiro do cabelo de Paulo, traços de sol, preservativos na gaveta. Ainda assim esse rastro concentra-se em um espaço, apesar de que a duração temporal de seu passo de um lugar a outro é tão insuportavelmente breve-veloz que aos olhos de Armando permanece o pressentimento de um quase cheiro, a promessa de uma sombra que perdeu a cor há milênios. E ainda permanece. A falta de presença presente do vulto cortante não quer, ou não sabe ser visto, sob pena de abrir a carne em cortes frenéticos e beber da sangria. Armando aperta Paulo. Fecha-lhe o corpo franzino com longos braços. Estica os músculos, seu pênis incha no aconchego quente, as juntas estralam. Ambos nus debaixo do edredom. A sensação de aperto infectante refugia-se em algum canto que ele prefere não explorar, desatando-lhe a respiração. Precipita-se para o lado; o outro expõe-se nu e sonolento. Armando estica-se com os joelhos fincados na cama, abrindo os braços para o teto num bocejo.

O calor lá fora mistura-se ao vento. Final de manhã; cheiro de comida vem de algum dos apartamentos. Paulo murmura ainda bem próximo das fronteiras do sono. Armando beija-lhe as nádegas, lambe-lhe a fenda quente. Ali permanece como se insistentemente procurasse por algo. Uma lembrança esquecida o faz retornar? Desliza a língua pelos contornos. Retorna. Mergulha a língua para dentro do corte. Sobe seguindo lentamente para que a umidade se recomponha, costas acima até a nuca. Engole as orelhas. Gemem-se grunhidos. Seu pênis escorrega-se pelo corte; a cabeça com seu olho riscado amacia-se carne adentro. O pênis atrita-se curioso. Armando fecha-lhe o corpo com os cotovelos, abre as pernas e arremessa-se ondulante para dentro de Paulo. Chamam-se um beijo longo, assoprando hálitos para dentro da boca um do outro. No fundo de Paulo ferve um cântico contínuo como a calda de uma sereia espumando-se na areia. O centro quente de Armando é a rachadura no fundo do Oceano que empurra fúria em direção ao litoral. Transpiram-se, acoplam-se em outros tantos encaixes. Devastam-se em tremores. Para dentro de Armando vaza uma gemido que esparrama em sentido oposto uma névoa líquida. As duas bolas de metal enfiadas nas línguas ecoam-se em baques. O desejo de Paulo é acolher desejo! Trocam fôlegos. Ambos dissolvem-se progressivamente num instante de luz consistente esbaforida em estilhaços que apagam, momentaneamente, a visão. Armando permanece ancorado em Paulo, querendo mais. O desejo de ambos em extrair e imprimirem-se como que afixar uma cor precisa à paisagem é quase doloroso. A entrega de Paulo com olhos à beira de um chamado magnetiza em Armando a ânsia de escavar-lhe, instalar-se pelas curvas dentro e fora dele. Curvas que espontaneamente ele oferece-lhe. O suor lhes embalsama. Um feitiço defuma o ar. Reviram-se face a face, respirando hálito. Paulo soluça uma alegria ansiosa. O calor de ambos é hóstia que os desperta e, como em uma latente inevitável precipitação pela curva rumo ao sol, desfalece, incitando o pendulo que se mantém à beira de um despencar, mas que já se regozija com a mera anunciação da aurora quente que os atrai e os mantém girando, em torno. Armando fecha os olhos; na escuridão de sua visão registra um sussurro de silêncios, uma vigília escura articulando-se pelas dobras, encrespando a curiosidade em obsessão. Apertam-se, ambos em estado de morte aparente. Apertam-se desejosos. No lençol, umedecendo-lhes a pele, o esperma de Paulo. Por dentro Paulo sente-se molhado. Apertam-se ainda mais; cada um com um pouco de sangue respingado nas mãos e nos braços.






solavanco >>>>>>>>




Helena já estava acordada quando abriu a porta. Veio a vontade de escancarar as cortinas. Por um momento fica parado diante da janela, despistando a sensação de claustrofobia que o enfurece. Ela se vira para a parede e toma a posição fetal, suspirando aquele seu característico gemido que tanto o seduz - já me fizera dizer que ficaria com ela para o resto da vida, só pra acordar com seu murmúrio preguiçoso. Com o tempo as coisas se modificam. A vê de esguelha. Pergunta o que ela diria se lhe contasse sobre sua morte, Consuelo, Maria do Carmo; enfim. As feições de pavor e desespero. No apartamento, dentro do quarto, ao lado de Helena, tudo o que aconteceu parece tão inequívoco como um delírio. Imaginação implacável. Estacado aqui, sentindo o cheiro do acumulo do hálito de Helena impregnado pelo quarto, Aurélio atingira uma sintonia diferente; o ambiente de agora insiste em redefinir, ainda que algo inexpressivo mantenha-se elementar. Tudo o que aconteceu nas últimas quinze horas soa tão irreal que quase suspira de alívio, não fosse a ansiedade cutucando fundo. A foto no bolso toca-lhe por debaixo da mão espalmada. Helena provoca-lhe um solavanco quando pergunta quem é a mulher com quem eu tomei café, e que ainda fizera o... oh!... o favor de quebrar a xícara que ganharam de presente em nosso casamento. Seu maldito filho da puta. Pescoço inchado, entupido de sangue colorindo-lhe o rosto. Lançando-lhe um olhar violento. Por um momento não sabia o que fazer com as mãos.

O calor misturado à péssima circulação de ar entope o quarto de uma aflição que torna Aurélio em câmera-lenta. Abre a janela sem olhar para ela; um vento excessivamente lento estaca-se pelo ambiente, e ainda que o sol esteja oculto por nuvens escuras, ainda assim o quarto parece expandir-se de uma claridade bem mais confortante. Por um momento acredita que o vento lhe refrescaria, mas somente um inusitado calor abafado entra. Uma gota de suor desfia-se da axila; ergue a cabeça e fica atento. Sua voz treme ao dizer que o porteiro viu uma mulher ao volante; em seu próprio carro. Excede-se ríspida ao complementar; em nosso próprio lar. Soergue-se pelos cotovelos encarando-o; se é que isso já foi algum dia algo como que um lar. Há mágoa e assombro no modo como Helena abraça os joelhos contra os seios. Seu nome é Maria do Carmo. Ficamos em silêncio. Sento-me aos seus pés e conto-lhe tudo o que se passou comigo desde o instante de minha morte. Descrevo-lhe meu encontro com Maria do Carmo, falo de sua morte e de como Consuelo conectou-se a mim. Conta-lhe o mais fiel possível. Pelos entremeios do que fala denuncio-se calado, incomodado com a memória combinando-se à imaginação que preenche lacunas perdidas. Pela janela vê nesga da cidade. Desassossego apossa-se dele. Helena desvia o olhar para dentro de seus olhos com feroz fixidez, pula para fora da cama, enfia os pés na sandália e sem uma única palavra entra no banheiro.

Ligo para o escritório e digo que não posso trabalhar, relembrando minha secretária que o relatório deve ser entregue hoje. Vou até o quarto de meu filho. Armando e Paulo dormem abraçados; Paulo com a cabeça solta no peito de Armando, os braços de meu filho envolvendo-o como se os repousassem sobre si mesmo. Há necessidades mútuas, desejo de usufruírem-se um no outro, um para o outro, celebrando relevo e profundidade ao ambiente. O sol participa-se pelo quarto. Há calor irradiando-se dos dois, ornamentando-os de proteção. Também pressinto temor em algum ponto, em torno. Não, eu não pressinto mais, eu já transpiro. O arrepio maldito. O rastro calculando-nos próximo. Quando dou por mim estou recurvado, abandonado momentaneamente pela consciência de minhas batidas cardíacas, angustiado pelo rastro ter se alojado com tamanho peso gravitacional em meu filho. De algum modo alguém ou algo convidou-o a entrar em casa. Ele, pouco a pouco, já não é mais uma visita. Meu sangue aquece-se de uma velocidade tal que meus pulsos ardem de dor. A sombra agigantada de um pássaro movimenta-se pelo chão do quarto. Há beleza no aconchego dos dois, um sedutor e misterioso estremecimento na cena; um enigma que me inunda de uma tolerância inquieta. Os olhos de Armando tremelicam-se breve por debaixo das pálpebras. Recordo-me do aconchego que Armando me trouxe enquanto entrava pela casa de Consuelo. Olhando-os sei que não sou o único à espreita. Ele está tão realmente próximo, em qualquer lugar, detrás da porta, da cortina, debaixo da cama, por entre seus corpos, em alguma daquelas gavetas. Distraio-me com cheiro de sabonete. Helena esbarra em mim sem me dirigir uma única palavra. Helena, Helena; diz baixinho. Sem se virar ela me diz que eu enlouquecera e que precisa de ar, precisa pensar. Precisa ficar o mais longe possível de mim. O mais distante possível; exalta-se em voz firme, de um falsete irado. Fecho a porta do quarto quase que simultaneamente com sua saída pela porta da frente. Persigo Helena. Ela a passos largos para dentro do elevador. Alço-lhe pelo braço. Ela se sacode empurrando-me em fúria. Me larga seu merda, não acredito em uma única palavra do que você me diz, sinto-me suja. Confusa; seu tom de voz possante escorre pelas escadas, pelas frestas. Uma das portas no andar debaixo entreabre-se. Tenho que encontrar um modo de tirar você de mim. A minha vontade agora é de pular em seu pescoço e parti-lo ao meio, aqui mesmo, sem a menor cerimônia. Algo me impede algo me impede eu me odeio por isso. Calafrio desprende-se do chão. Não desvio o rosto. Helena aperta os lábios como se segurasse um segredo. Quanto mais ela se amordaça maior é o sentimento de tristeza apossando-se de sua face, para logo em seguida recuperar-se em um sentimento de raiva transbordando-se acumulativo e ameaçador. Uma sensação bizarra clama por uma explosão ofensiva, com braços esbaforidos e pesados estirados ao léu, afundando baques na carne. Permanecem se olhando com ira enjaulada, atados à civilidade incrustada em nossos corações. Mas a reação que a sublimação causa é atordoante; parece corroer-nos com as garras mais afiadas que buscamos despistar. Helena surpreende-me com uma bofetada no rosto. Retribuo num impulso automático. Nossas faces avermelhadas, sacudidas de uma incompreensão instigando-nos fome um pelo outro. Eu me sinto acuada. Palavras com olhos perfuram retina. Perdi tempo na vida, perdi meus sonhos. Estou com quase quarenta anos e. E você com esse tal positivo aval da morte, e ainda que algo me diga que a culpa é toda sua, ainda assim eu própria não me convenço. Sensação de angustia e ansiedade aterradoras. O desgoverno que minha vida sempre parece ter sido, agora torna-se evidente e quase insuportável. Sinto-me avulsa. Avessa. Aurélio enterra seus dedos para bem dentro das palmas das mãos na medida em que retruca, seu corpo reagindo em recusa; eu não aceito a culpa sendo somente minha. Helena se afasta. Seu reflexo no espelho do elevador desaparece diante de seu corpo colando-se nele. Reflexo. Abre a boca, mas nenhum som ressoa. Sua boca continua abrindo e fechando, calada. Seus olhos escorregando em torno, até que de repente sílabas concatenam-se; nem mesmo Armando me chamando de mãe me preenche de vitalidade, não me vem a alegria que antes me dava certeza de ter contribuído com. Seja lá o que for. Seus olhos inundam-se a ponto de que não apenas uma única lágrima seja capaz de impedirem-se inclinar pela face. Agora tudo me soa como que um amontoado de trapaças, sem contar que pensar deste modo me assusta. Coloca a mão no peito sentindo a foto no bolso. Helena engole uma pausa rouca acumulada garganta adentro. Eu não me sinto mais segura de mim mesma, tenho me achado feia, desajeitada. E toda vez que te vejo. Toda vez que te vejo sensações de agonia me apertam por dentro e por fora.

Helena dentro e Aurélio fora do elevador. Olham-se ásperos, desafiadores, cheios de rivalidade primitiva, absolutamente imóveis, até que Helena suspira fundo enquanto enxuga as palmas pegajosas. Há afronta nos olhos. Será realmente que o que os impede de se estraçalharem aqui mesmo é algum tipo de consideração, ou é mera questão de sobrevivência? Ambos não são a mesma coisa? Apertando dedos uns nos outros ela enfim diz, com o rosto erguido; ainda temos impasses a serem resolvidos. Helena busca a palavra que possa realmente definir um modo de dali escapulir-se, com sutil cuidado, tal como quando ministra suas aulas de literatura. Quer dizer: quando ministrava suas aulas de literatura. Agora, depois dos descontroles, está de licença médica por tempo ainda indeterminado. Entretanto, que fique claro que não importando quais sejam as conseqüências, eu não vou me sentir atada a você nunca mais, jamais.u não quero, eu não posso me afundar mais, não nesse instante- seus olhos então parados, ruminando um ponto fixo com uma brevidade alargada, como se séculos comprimissem-se ali sem que nenhuma respiração conseguisse desprezar-se. O que não significa que efetivamente não estaremos juntos. Não sei, não sei. Pode ser que sim, pode ser que não. Eu não sei. Eu só sei que fiquei árida, é isso. Pára de súbito como se de repente se surpreendesse num dilema.

A promessa de um desabamento impede algo. E que estúpido gosto amargo. Quando de algum modo as peles adivinham o calor saindo em ganchos por todos os lados em torno de ambos. Nos identificamos como ecos inibindo-nos de mover. Ainda que curiosos, incompreensivelmente, um e outro à espera. Repentinamente eu lhe sorrio à beira de um descontrole gargalhante. Mas foi ela quem gargalhou primeiro. Rimos juntos e alto sem olhos nos olhos. Retorcidos e estranhos. Apoiada nos joelhos antes de erguer-se austera. Não sei quando volto e muito menos onde vou ficar; esbaforiu-se espetando os ombros para cima. De algum modo eu sabia que estava chovendo, talvez eu tenha visto algum pedaço de chuva enquanto corri até Helena, sem que a cena se afixasse consciente, mas que repentinamente, agora, veio à tona. Só não se esqueça de que tudo o que lhe disse realmente aconteceu; balbuciei num misto de devaneio e lucidez. Sem desviar-se de meu rosto sua mão remexe a bolsa até encontrar as chaves do carro. E esse tal de vulto. Ora, me poupe. Seja lá quem for, soa tão bizarro quanto insano; encara-me incisiva. Eu sei, eu sei, eu sei. Permaneço imóvel por um breve instante, vagando pelo ínfimo milésimo de tempo que me parece absurdamente prolongado. Provavelmente se não tivesse acontecido comigo eu também não acreditaria. Solto a porta do elevador enquanto ela murmura algo que não ouço. O elevador desce. Helena de pé em cruz, envelhecida e pálida, braços abertos com mãos segurando duas das paredes do quadrado. Que parecem se fechar, empurrando-a para dentro do espelho. Inquieta. Atrapalho-me no caminho até a porta sem me decidir se desço as escadas ou entro.







pálpebras >>>>>>>>>


Giro a maçaneta. Empeno para frente abrindo a porta. Vacila morto – num piscar de olhos observo-me tornando-me ainda mais vivo. Transição tremendo-me os olhos. Antes mesmo que uma minúscula fresta se fizesse, aqui estou eu outro eu eu empurrando a porta. Eu. As pálpebras expandidas pelas retinas inflamadas. Penetro pela sala com a lembrança de uma sensação que não parece ser minha. E é; eu sei que é, apesar da vertigem. Roçando-lhe. Carregada de uma lucidez de espanto. Ouço passos que meus ouvidos quase não conseguem ouvir. Repentinamente um sopro de espinhos definha-me a visão. Hesito-me breve, constrangido com o arrepio áspero que me percorre - alguma coisa traduzindo-me em mim, esforçando-se para provocar reação. Visualizo um rosto sem faces e uma voz oca escapulindo de todos os lugares. O lustre sacode-se brusco; permanece rangendo até paralisar-se de súbito. Estremece uma vez mais e solta-se do teto. Espatifa-se aos meus pés. Meus sentidos quase estilhaçados de tamanha acuidade, registrando minuciosamente cada objeto estendido pelo ambiente. Ouço um grunhido, uma espécie de som arcaico esgueirando-se ainda mais dentro do ouvido. Não, não é somente dentro do ouvido, é um escutar onde cada pedaço que sou eu prontifica-se, anima-se. A rugosidade de uma língua úmida, possivelmente humana, acalora-me a nuca até a dobra entre o pescoço e o queixo. Desvio-me a passos largos. Caio de joelhos. Vejo uma lasca de olho olhando-me com tamanho desvio de pontadas que fica-me a nítida sensação visível de termos sim nos olhado olhos nos olhos; uma lembrança inacabada. Contorço-me em espasmos vazios devastando-me garganta afora. Antes que pudesse travar a garganta um acumulo de articulações sonoras primitivas ecoa algum tipo de código. Uivo estica-se gordo. Ponho-me de pé. Voz afiando-se pelo meu de-dentro cava-me passos.

O terror assustadoramente impregnado de pavor saltando dos olhos de Armando e Paulo, estacados ao pé da porta, me fere. Levanto os braços, mãos acima do rosto, espalmadas; enrugo o rosto. Cuspo respingos de sangue violentando-me doloroso; no entremeio, na linha fronteiriça entre a ânsia que expulsa-me pela garganta e veda-me a cavidade ocular em contorções ofegantes, e entre o gosto de fome que emerge submergindo-se em meio à zona quieta da imaginação, por pouco quase retenho pedaços soltos de um vulto escorregadio ansiando-se ali alojar-se. Um coice, um baque por toda a superfície frontal de meu corpo espirala-me. A pulseira de meu relógio se parte enquanto contorço-me pelo ar. Suspenso. Ínfimo registro de um risco de boca escancarada, o resto são cores velozes que não assimilo. Na queda agarro-me às cortinas; por pouco não me espatifo contra a janela, o cimento lá embaixo. Armando avança em gestos largos. Retenho a imagem do que me parece ser a dobra de um ombro, uma perna flexionada, contorcendo-se em força inchando-lhe a quase presença. O rastro afunda-se no peito de Armando; seus braços e pernas agitam-se inertes, sendo puxados pelo tórax apontando-se veloz em pleno ar rumo à mesa de jantar. Seu rosto retorce em dor ao ruir-se com a mesa. O característico arrepio aflora-me; no mesmo exato instante entrevejo a escura capa que despista-se em um espécime corpóreo ainda inacabado, mas definitivamente bem mais nítido que antes. Ainda assim vejo-o quase imperceptível. Uma sombra escapadiça esvoaça a sala de um toque inaudito, tornando-me pesado; seu sopro enraíza os pés de Paulo a quase um palmo do chão, agitando-lhe o cabelo - a luz esparramada do corredor denuncia sua magreza. Um redemoinho pálido enlaça-se em espiral em torno de Paulo. Intraresvalando-lhe. Enquanto atravessa Paulo como se seu corpo fosse densa névoa, de tão palpável, estremecimentos provocando umidade despertam-lhe rigidez na carne capaz de manter-lhe equilíbrio nos pés; ainda que sem tocar o chão. Rastro arrasta Paulo em seu próprio lugar; sua presença é a resistência inevitável à violência calculada - um passo a mais poderia obstruir o amparo, romper tempo-espaço Paulo por onde esse ele selvagem modela-se mais palpavelmente visível que há pouco instante encontrara-se. Antes. Não que este rastro de quase algo inteiro, ainda que escondido, soubesse enfim até onde ir; em verdade é um algo em alguém antes de sua rasura - um antes aguardando-o ser-se sendo-se. Com ele. É como que um quieto tremelico de vida esperando vida reconhecer-se vida. Tudo o que vejo é turvo. Ao longe Armando é um inerte repouso com riscos de sangue na face. Paulo de ombros arrepiados como que sugados para o alto por um gancho. Vejo a ponta de uma capa escapulindo-se em torno e por entre Paulo. Uma dor aguda perfura-me a escápula. Respiro fundo e retenho ar; receio permitir o ar sair e a dor expandir-se. Por fim desisto, avermelhado. Permaneço imóvel no chão por um bom tempo, membros débeis emaranhados na cortina embolada. Veias estufam-se em torno de meu crânio, pulsantes; escoriações lançam-me sinais ardidos. Ainda não vejo com precisão, mas sei que o vulto diante de meus olhos é uma mão estendida. Suturo-me força; minha mão acoplando-se à mão. Soergo-me com dificuldade, ainda reconhecendo-me pulsar resistência aquecendo potência a cada instante. Uma voz encorpa-se – é o tom de Paulo. Meus olhos distinguem-lhe pálido, olhos saltados. Aperto as pálpebras com força. Apóio-me nas nádegas. Armando está sentado com as costas na parede; certamente Paulo ajudou-lhe a se recompor. Incomoda-me olhá-lo cabisbaixo, cabelos redemoinhados, apertando o abdômen com fúria. Não, não há fúria em seu rosto, é medo; ou seria ódio? Desviamos nossos olhares no instante exato em que nos encontramos retina com retina. Aperto meu peito; dou-me conta da foto de Consuelo ainda no bolso. Retiro-a do bolso. Observo a foto por um tempo que parece soar demasiado longo, esticando-se até um instante que então ele, o tempo, como que começa a apagar-se, alternando a imagem com as palavras que escrevi no verso. Na imagem Consuelo e um homem que julgo ser seu companheiro, provavelmente pela ternura descontraída com que aconchegam-se distraidamente um no outro, sorridentes. Um registro raro. Atrás da imagem sorrir é proibido.

Um vasto acumulo de vento empoeirado entra pela janela, forçando-nos a quase fechar os olhos; os longos cabelos de Armando esbaforidos ao léu espinham-lhe os olhos insistentemente abertos. Ele parece recuperar-se instantaneamente, levantando-se em gestos irados. Olhamos ao redor, os três, como se desafiássemos a criatura. Mero cuidado excessivo, de uma inconsciência embolada. É então que nos damos conta de algo materializando-se entre nós. Hesito desviar o olhar do objeto transbordante de uma energia que me desconcerta. Um machado de aparência esquecida pelo tempo; antiga no sentido de que mudanças já ocorreram para que o aspecto de um machado não mais seja especificamente aquele. Eu sonhei com ele; rompe-se Armando apontando para o corpo estranho. Paulo vacila, desmoronando-se em soluços de surpreendente descontrole; o rosto esmagado pelo aperto das mãos enquanto seu choro profundamente sentido desfia-nos arrepios. Não ouso aproximar-me. Todo o corpo de Paulo é uma confusão encontrando encaixe. Um certo charme escapole naturalmente; não é mais o mesmo Paulo ainda que o mesmo. Armando permanece suspenso num susto, para logo em seguida ir até ele, beijando-lhe o dorso das mãos que tapam-lhe a face. Paulo recompõe-se aninhando-se em Armando. Eu senti um surto de tremores incontroláveis invadindo-me; uma solidão hedionda apalpando-me, insinuando-se em mim. Como posso dizer? Algo encharcou-se devagar em mim. As palavras saltam-se em soluços progressivos alargando vãos que dificultam o elo entre elas ao passo que também seduzem-se umas às outras. O esforço de Paulo dificulta-me o ar. Eu não sei como dizer, eu não sei o que dizer; seu rosto ainda coberto pelas mãos. Essa coisa me abocanhou inteiro. E estranhamente eu a quis, ainda que eu pressentisse algum tipo de horror perfurando-me, ainda assim eu ansiei pela sua inflexibilidade, pelo seu cheiro quase seco, de onde eu avistei umidade ao longe. Eu me olhava. Devastei-me desprotegido para que ele se espalhasse em desalinho. O alarme de um carro dispara insistente. Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, de algum modo é como se eu o acolhesse em meus braços; acrescenta. Armando contorna-lhe a cabeça encaixando o queixo em sua nuca, de modo que seu rosto oculta-se do meu. Num primeiro momento eu resisti e era como se essa coisa, ao rebater-se de encontro à minha recusa, rodopiasse em riscos sinuosos. A expressão facial absolutamente desatada de tudo que conheço em Paulo ergue-se por detrás de suas mãos espalmadas, então lentamente desabadas. Seu rosto molhado de suor e lágrimas. As palavras escapolem dele atropelando o ar necessário. Seu rosto inchado de uma face que é quase sua. Pupilas tremelicantes incansavelmente à procura de um ponto fixo em meio à ruína da sala. Tudo tão breve, fincando-me a sensação de uma unha pontiaguda, levemente afiando-me desejo - dele. Sentir novamente. Permanecerá em mim como que um pedaço em meu corpo. Um membro meu. Paulo parece finalizar. Mas ele continua, com uma articulação de palavras que não parecem ser dele; estranhamente não quero esquecer, quero relembrar a sensação dele em mim. Uma espécie de vontade doce em querer dominar. Uma vontade tão certa de si como nunca senti antes. Olhamo-nos em silêncio, os três - Armando de soslaio. Desafiando alargamento do pensamento - o enlace deste pacto é um timbre aquecendo o silêncio que potencializa as palavras. Palavras. Paz borbulhando-nos de uma cumplicidade claramente ofertando-nos impulso corpóreo. Paulo fisgado por um ponto cego, numa mistura de confusão e consistência como se uma não fosse possível sem a outra. Seu peito incha enquanto balança a cabeça; é como se de repente eu me descobrisse muito mais além do que consigo acreditar. É como se a interseção que atrai todos os pedaços de mim se derramasse para todos os lados, iluminando-me à revelação que me amplia – continuamente. Paulo contorna os braços em torno de Armando, puxando-o ainda mais contra si. O alarme do carro persiste-se escalando o edifício. Deve ter já ultrapassado de vontade a altura das nuvens. Capto a suavidade de um gesto quase imperceptível. Um ínfimo gesto de repulsa em Armando estira-o em desencaixe perante o chamado corpóreo de Paulo. Mas os dedos de Armando, em meio à doce repulsa, afastamento entornado de sutilíssimo afeto, repousam em um toque curto sobre as veias saltadas no dorso da mão de Paulo. Mas não há como negar, apesar do leve repuxo de sobrevivência, comportas destravam-se, um amontoado de ardor ondulante arqueia-lhe inteiro, arrastando-lhe infalivelmente pela precipitação que lhe permite desatar-se em mergulho rumo à curvatura que Paulo empena.

Estico-me querendo tocar o teto. Meus joelhos estralam redondos e duros; meu punho, ao apoiar-me, enruga-me a face em alfinetadas de leve agonia. Parece que por pouco não parto o tornozelo no instante em que sustento meu peso. Dobro-me diante do machado. Estico o braço com certa reverência. Seu cabo é de uma madeira escura, em farpas, muito mais pesada do que se pode imaginar à primeira vista. Toco de leve a lâmina escurecida em manchas gordas. Minha digital deslizada pela agudeza fina do corte ressoa-se quase imperceptível em sons quebradiços que angustiam-me a mandíbula. Minha carne inteira tremelica. Seguro-o na altura de meu peito, bem mais próximo aos meus olhos. As manchas escurecidas avermelham-se lentamente, encorpando-se de frescor, com um odor molhando-me as narinas. Todo o machado adquire um aspecto novo em folha e igualmente ancestral. Um cheiro de fumaça defuma o ambiente. Pela lâmina escorrega um vulto; uma faísca de luz cortante me faz recuar a cabeça, sacudida para trás. Pisco os olhos repetidamente. Da lâmina escapa um grito esticado, impelindo-nos equilíbrio precário. Grito sem eco. Cenas bruscas cintiladas da lâmina acoplam-se à mente de cada um: por uma janela tochas, ganidos, um olho e um lábio de mulher, água derramada de um copo, um cotovelo pesando e pontudo, braços apertando-me contra um cheiro de útero, chamas queimando mãos amarradas, cortes afundados na carne, sangue escorrendo grosso. O machado acumula-se de um peso que, pela rapidez, desconcerta-me o equilíbrio. Quanto mais o grito ressoa, cenas acumulando-se, indecifrável em seu modo de prolongar-se no mesmo grito, capaz de acender-me náusea, mais e mais enrijeço-me, comprimo lábios. A ferocidade do som que dali desconfina-se torna o machado insuportável de segurar. Cai. O estralo no chão é fenda calando-nos tão progressivamente fundo que é como se revirássemos para dentro de nós mesmos.







furado >>>>>>>>>>



Enquanto sobe pela escada rolante Helena não sabe exatamente aonde ir. Quase enfia a ponta do sapato no último degrau comprimido. Segue pelo fluxo de luzes e vitrines, contornando e sendo contornada por pessoas. Seu rosto estampa uma expressão arqueada de mulher vaidosa, bem cuidada, cabelo sedoso, caminhando maleável e envolvente pelo assoalho aparentemente escorregadio. Por pouco não desaba e deixa bem evidente a perplexidade em que se encontra. Enfia o dedo embaixo da alça, ajeitando a bolsa no ombro. Disfarça-se de envolvida e atenta diante da vitrine de uma livraria. Apertando entre os seios com o cuidado de quem enfia os dedos pelo entremeio da carne que fermenta vermes sedentos. Não pela carne pela qual estendem-se e que caprichosamente mastigam vez ou outra, mas sim pela carne daqueles que sentem o dever distraído de enfiarem-se ali dentro. Enfia o dedo com mais força. Mapeando o ponto de pele mais próximo ao salto cardíaco. Aquela localização onde acredita-se quase tocar o coração. Teria que arrancar os seios. Mas antes de cavoucar as unhas pela carne tomaria um daqueles comprimidos que desloca-lhe de tudo o que lhe arde as rótulas e os nervos. Mas nem dormir parece escapulir-lhe do redemoinho apertando-lhe por dentro, espetando-lhe impostura. Que ela despista em movimentos quase bruscos. Será que fizera as escolhas erradas? Será que sofre de uma realidade irreal? Irreal no sentido de que o tempo a tornara obsoleta. As perguntas que faz são quase como que pontadas submergidas de inconsciência. É tudo tão surpreendente; diz Helena olhando-se no reflexo gasto com uma expressão que é quase tormenta. Tormenta esquivando-se submersa pela paisagem serena. Helena estranha seus próprios olhos quase desaparecidos. Armando. Armando. O ato de ser mãe preencheu-lhe de uma certeza de autonomia que ela, hipnotizada, regozijante, nem percebeu ser um embuste. Estúpida; balbucia. Socada pela carne daquele estranho que lhe trouxe o estranho. Morde a ponta da língua com ódio de seu orgulho. A vontade de gritar é tão incontrolável que a única solução é entupir-se de sangue destravado, espalhando-se por todos os vãos e frestas. Tem a sensação repentina de estar por tempo demais plantada ali. Move a cabeça e o titulo bem à sua frente incomoda-lhe: AIDS & humor – charges. Enerva-se.


Helena atravessa-se para dentro da livraria. No balcão pede um café com creme. Desliga o celular enquanto não vem. A garçonete desbotada com brilho suado no rosto não a olha nos olhos. Na verdade não olha ninguém acima do queixo. Recorda-se de uma de suas alunas, sempre olhando onde ninguém parece olhar, ruiva em seu canto quieto. Sacode a cabeça. Paga o café antes que ele chegue e caminha entre os livros. Caminha sem muitos movimentos, guardando energia pra execução que seu corpo, de uma atenta espera, sabe que está bem próxima. Uma criança cutuca-lhe a perna perguntando onde estão os livros de criança. Olha ao redor e aponta. Uma criança aflita, minúscula em meio às enormes estantes, o teto altíssimo, as cabeças olhando-lhe lá de cima. Imagens aparentemente abstratas, recortadas em cores laranjas e verde musgo; uma espécie de junção de linhas quase reconhecíveis e letras negras esboçam-lhe um chamado, não na prateleira, mas nas mãos de um homem estranhamente recurvado um pouco ao fundo da livraria, quase que fora do alcance de sua visão. O livro aberto iluminando-lhe a face de homem. Grandes mãos, braços fortes. Uma curiosidade incomum apossa-se de Helena. Sem pressa olha. Distrai-se pelos mais vendidos com olhos atentos às mãos do homem segurando o livro com força. Cobiça a vontade de segurar algo assim. Um apelo incontrolável que ela quer. Sua face ergue-se de súbito na direção de Helena. Despista-se abrupta em torno, igualmente incontrolável, esticando o braço. Alça um livro qualquer ordenado na prateleira ‘estrangeiros’, abrindo-lhe ao léu. Põe-se a ler a primeira frase que desprende-se aos olhos: ‘Quem não morre antes de morrer, está arruinado quando morre’. Um solavanco automático retorna-lhe ao início da frase repetidas vezes, seguindo-se do fim ao começo da sentença obsessivamente, descontroladamente como se não soubesse como parar. Finca-se ali como um disco furado. Ancora-se nas palavras, no ritmo que exala do atrito entre elas inchando-lhe a cabeça de um peso que curva o pescoço. Helena estática e trêmula. Seu cérebro ordena que todo e qualquer nutriente e oxigênio devam incondicionalmente ser desviados para seus entremeios cefálicos iscados pelo odor daquelas palavras.


Um rosto pasmo. Aromas em ganchos submergindo de algum tipo de obscuridade pegajosa tragando-lhe para longe do equilíbrio iluminado de claridade exalada pelo amontoado de corpos. Sente uma pontada cortante na área uterina. Contrai a boca. O alto falante toca uma música que soa quase reconhecível, ao longe; tão perto e ainda assim esvaecendo-se ao longe. Alguém movimenta-se próximo, bem junto, enfiando-lhe o cotovelo; seu corpo já em tormenta desarticula-se do livro que despenca. Helena acrescenta um gemido pálido ao baque do papel duro no chão. Na capa estendida para cima ela lê o nome Jacob em voz alta. Um braço cortina-lhe a visão. Seus olhos acompanham o livro sendo alçado. Um homem estendido bem diante dela, com as mãos fechando o livro. Posso ajudá-la?; acrescenta diante de seu espanto. Helena aturdida, zonza, à beira do inexpressivo com a acuidade repentina da percepção sendo martelada pela precisão aguda dos cheiros, sons, deslocamentos de corpos. As palavras percorrendo-lhe no compasso de pancadas cardíacas. Num gesto rápido o homem coloca o livro na prateleira e segura-lhe antes de cair. Preciso beber algo; balbucia. Helena arrasta-se dali apoiada nos ombros do homem, enganchando os pés moles pelo chão. Antes de cruzar a porta de entrada surgi-lhe a ânsia de voltar, fervilhante, em perseguição ao fugidio aroma iscando-lhe às entrelinhas daquelas palavras ainda repercutindo comando – que, à medida em que não obtém resposta, alucina-se, nervosa como vermes sentindo cheiro de carne.


Ela até que suportaria mais um lance de escada rolante, não mais que este, um apenas, mas se não se sentar agora, de imediato, sei lá, algo diferente pode acontecer; um berro de descontrole, um puta-que-pariu à postura. Um uivo estridente. Meu Deus eu estou quase morta de medo. Sua mente rodopiando. Recurva-se sobre a mesa. Destoada, angustiada de náusea. As palavras ainda coladas na sua dicção sussurrada, na tela distante de sua mente, cutucando-lhe. O homem lhe toca. Oferece-lhe uma garrafa d’água, um copo. As palavras vão sendo varridas para longe. Ainda permanece um eco, apenas um eco arranhando. Helena respira fundo e mais fundo e mais fundo. A água vacilando-se garganta adentro aflora-lhe uma sensação que lhe arrepia famintos tentáculos de pulsação; os músculos da face, ao redor dos olhos, descontraem-se numa espécie de ritual de louvor à umidade. O homem sorri um quase susto à espreita de uma alegria. É que o dia continua oferecendo-se tão vasto de possibilidades; diz Helena de repente.








cortada >>>>>>>>>>>



Quantas vezes terá de morrer antes que seja capaz de olhar-me de frente? Palavras ressonando, rebatendo-se exigentes, adquirindo independência na medida em que a sombra do sono disfarça-lhe do peso de seu corpo. Tão exausto que assim que encosta a cabeça no travesseiro a respiração já é longa e funda. Logo após, foi logo após; Armando exaurido, dolorido. Ainda havia sol; já não era quase noite. Os olhos se abrem - fechados. É noite, alta madrugada, a mãe está afoita, olhando pela janela, mãos segurando o machado. Havia sido um dia de morte, gritos tapados, barulhos de ossos partidos de duas mulheres amigas da mulher. O menino pelo qual os olhos de Armando vê tem nove ou oito anos - desde que me lembro vem alguém e bate à nossa porta, convidando-nos a caminhar em círculo pela praça quando é dia de queimar gente ou quebrá-las com pedaços de ferro; depois arrastam-nas pelas ruas; ou antes, ah! bem, é que há vezes em que são arrastadas antes de serem queimadas, e outras vezes nem são queimadas, e as pessoas, as boas pessoas têm que pisar nelas, cuspir nelas, fazer o que der na cabeça. Fico sempre meio encabulado quando vejo um corpo nu sendo arrastado por um cavalo. Foi difícil olhar; hoje foi muito difícil ouvir as pulseiras de ferro enferrujado apertando tornozelos, mas não só por que eram amigas de mamãe, não, mas é que realmente elas resistiram por muito mais tempo que muitas outras mulheres. Mas não é só isso, é que vi homens no meio da multidão com olhos disfarçando um susto que invocou-me uma sensação que não reconheci. Eu fiquei cansado, recuei o olhar; mamãe se recusou a cuspir na fogueira e o homem vestido de preto nos olhou daquele seu jeito pesado. Lembro-me de um encontro desses em que chorei, solucei esbaforido; nesse dia eu vi milagres, desenhos elevando-se das cabeças, coisas que só eu vejo, formando-se na fumaça. Jogaram um pó dentro do fogo e a fumaça desapareceu. O fogo ondulado em foices continuou alimentando-se do calor das carnes, estralando-as trêmulas. Curvas cortadas. Foi breve, muito rápido mesmo, mas foi em uma fenda entre o amontoado de pessoas. Numa espécie de abre alas vi o rosto de mamãe, de boca rasgada, olho murcho afundado até o branco do osso, sua língua em fogo. Gemi um espanto rasgado ao pesadelo. Ouvi uma voz sem corpo. O menino abre os olhos sacudindo-se. A mulher chamou-me olhando-me de costas, estacada de um jeito endurecido ao lado da janela. Latidos. Levantei-me e fiquei de pé na cama, de onde pude ver tochas como gotas quase avermelhadas tremidas entre o negrume das árvores. Um amontoado de homens e cachorros ganindo, esbravejando seu nome. A mulher vem até o menino; beija-me. Sinto-lhe os seios, seu cheiro de frescor, muito parecido com o cheiro do mato nos dias de chuva caindo durante toda a noite. Húmus. Eles me querem. Eu não quero ir com eles, você sabe meu amor o que eles farão comigo. Na moldura da janela os pedaços de fogo são muitos. Depois...; engoliu algum pedaço brusco de pensamento, um repuxo de temor vacilando pelo canto da boca. Engessada. Depois...; limpou a garganta antes de recomeçar. Depois banhe-se deste cheiro, os cães não lhe seguirão os passos.


Nossos olhos atam-se e por um momento eu imagino se é possível deter o coração, e ainda assim manter o latejar de têmporas, o fermento quebradiço. Escorrego-me para dentro das palpitações, das valas cintilantes estacadas em cada lado do rosto; posso estender-me ali, no brilho ocular, enquanto todo mundo continuar rodando em torno dos tornozelos rachados, para sempre. Para um sempre sempre sempre. Minha mão aperta a garrafinha com terra verde que cabe na palma suada. Necessito de espaço antes que o ar me engasgue soterrado. Afasto-a. Vejo a mulher recuando. Quero que você me envie onde luz é corpo; diz sorrindo, quase num capricho. Faça isso - não eles. É noite quente e os cachorros estão pertos. Tão pertos que falta-me espaço para aliviar os braços e as pernas, então pulo na cama em uma cadência desconjuntada. É que deu-lhe vontade de sentar para comer, pelo menos uma última vez. Um asco afia-me um corte no estômago. Quase vomito na cama. Seu pescoço contorce-se brusco, olha esbaforida pela janela. Murmura algo, deslizando seu olhar para meus pés. Levanto-lhe o rosto pedindo o machado que ela me estende. Recurvo-me; de seu peso que me ocupa de um estimulo extremado estilhaça-se força. Sinto vento. Acerto-lhe a orelha. A lâmina fica atolado num grito de carne e osso trincado enquanto cai agoniada. A queda é um leque de estilhaços; sua expressão facial deslocando-se em inúmeras probabilidades de dor. Pulo da cama; puxo o machado fincado. Seus olhos estatelados nos meus, chamando todo o resto elementar e primitivo espantado no mais obscuro de meus de-dentros, todos os meus centros espatifados por tantas possibilidades murmuradas, desejadas. Ruídos de ossos e carnes e sangue cuspido em gotas sobre meu rosto. Na minha pele, enquanto arreganho a face, jatos quentes agarram-se. Sua ausência de berro desfigura-me; todo o seu corpo é uma careta aterradora, com exceção dos olhos estendendo-me estranhos afagos. Na penumbra, quase escondida, uma pontada de vingança. Certos íntimos em meu corpo é uma conexão de redemoinhos, uma espécie de estação gerando um impulso que não quer parar de contundir-lhe com o corte. E quanto mais arcaico o som de suas contorções, mais e mais frenético meus músculos puxam-lhe caminho rumo à luz, ao vão que lhe permitirá dar braçadas, limpar-se; ondas quentes lambendo-lhe pés, pernas, vagina, umbigo, mãos espalmadas, antebraços, cotovelos, braços, vão de dentro dos órgãos, costelas, mamilos esticados e duros, pescoço, queixo, lábios, cílios. Testa rasgada. Um quase último gemido abafado, entalando-a de uma fome vermelha derramada em jorros, banhando nervos e fibras nuas. Fico atento; não pode haver mais distração. Mergulho junto com a lâmina, inteiro de peso todo nosso. O assoalho da boca afundado até um pedaço mínimo de nuca por onde sua cabeça abandona-se do resto do corpo.


Seus olhos encharcados, afogados num rubro viscoso afastam-me dali. Fico na ponta dos pés, quase que escondido na dobra da janela. Reconheço um dos homens e o cachorro que lhe fisga. A tocha derramando-lhes dança febril de sombras; ódios evacuados pelas dobras inesperadas da face. Limpo o rosto com o dorso da mão. Encaro-me no corpo. Quase tive o ímpeto de esbarrar-me em seu braço. Esgueiro-me para fora esparramando-me o aroma verde, desviando-me por entre as gigantes árvores em galhos que se encontram. Olho de relance a lua pela metade. Resvalo-me pela penumbra sem dificuldades. Sons da noite guiando-me, indicando-me; esvaziando-me dos cães. São largos os passos. Conheço como ninguém esse bosque. Enveredo-me como água que precipita-se por fissuras decodificadas. Paro com as pernas levemente bambas, o coração nos tímpanos; berros e ganidos ao longe. Adiante, bem acima, num topo de árvore, grandes olhos fixos emparelhados para frente. Abundante plumagem marrom amarelada faz ruído olhando-me. A ave de cabeça arredondada segue-se em seu murmúrio gutural, definhando os sons em torno com sua presença de onipotência aguda. Envolvo-me descontraído, entorpecido pela luminosidade da lua faiscando-se nos dois negrumes incrustados num laranja intenso que me encaram. Permaneço olhando para cima, ouvindo-a, com os pés nus na borda curva do enorme tronco enfiando-se em tentáculos para dentro da terra. Um cheiro espesso de folhas caídas. Vejo a fenda no tronco. Encaixo-me de costas na cavidade, com as pernas ajustadas nas valas que as raízes saltadas para fora afundam. Adormeço na cadência das folhas ventadas sobre mim pelo vôo silencioso da coruja. Espirala-se em torno. Enquanto os dias acumulam-se em mim sou uma espécie de pedaço de natureza quieta e viva, de uma locomoção estridentemente silenciosa. Durante os dias, enquanto durmo, a coruja sobrevoa-me, espantando vez ou outra alguma criatura desavisada. Encolhe-se pelo de-dentro da curva afundada no tronco da árvore. O Sol espeta-se por entre folhas e galhos; riscando-se em curvas até atingir a mão solta. Incontáveis fiapos de peso iluminado serpenteando-se pelos poros, enovelando-se de fora para dentro, de dentro para fora. Propriedades da carne seduzindo-se à dança solar. Atraindo-se por nacos de luzes saltadas do vazio quente. Inunda-lhe a pálpebra, afundando-se para dentro na medida em que o globo ocular derrete-se pelas frestas. Trajeto pelo qual o menino adentra-se de peito estufado de exuberância; ainda que hesitante. Cada célula dissolvendo-se em energia espumando-se radiante. Cada pensamento sendo o próprio impulso do pensado antes mesmo que este se torne um pensamento; e ainda até mesmo antes de cogitar a idéia do pensado. Com essa propriedade veloz ele inunda-se de mais luzes enfeitiçadas pelo seu peso que, ao digeri-las, pelo trajeto, adquiri-se de uma crescente potência inflexível. Avista um brilho em um par de olhos de mulher; num solavanco desmancha-se de sua face, deslizando-se por uma fenda que empena-lhe o rumo. Todo seu corpo supra-energético arrepia-se pelos fios afora indicando-lhe probabilidades, envolvendo luzes desavisadas pelo caminho.


Armando abre os olhos num estouro. O quarto gasto vai arqueando-se progressivamente reconhecível. Definindo perspectiva. Ouve talheres e vozes na cozinha. Respira com esforço. Estica-se com cuidado, rumando-se ao teto sem tocá-lo, enrijecendo-se de ponta a ponta. Boceja fremir, vontade em voltar a dormir. Levanta com dificuldade. Amolecido. Recurvado cambaleia-se até a janela e permanece parado, olhando as luzes riscadas e outras luzindo paradas. Há febre nas sombras da noite.







assopram-se >>>>>>>>>>>>



Ainda é começo de noite. O homem toca-lhe a mão. Helena reergue-se, despista-se da respiração entre as palavras. Jacob; murmura. Aperta os olhos e balança a cabeça. Num gesto rápido abre a bolsa. O homem toca seu cotovelo, quase de leve, quase um empurrão. Helena de súbito dá-se conta do homem sentado à sua frente. Espalma as mãos sobre a mesa; a da direita bem próxima aos pelos de seu antebraço. Vem-lhe a lembrança do vigor com que segurava o livro. As nervuras apanham, acatam o tênue chamado da veia que lateja. Sorri quase infantil, como se a obsessão de sílabas fincadas umas nas outras pela força da atração imponente espantasse-se vigorosa. Seus olhos congestionados vêem o homem ainda mais. Quase sorri; afrouxa a gravata. A voz que deslocara-lhe vertigem pelos músculos dispersa-se na mesma proporção em que os sons da área de alimentação devolvem-lhe consistência às imagens em torno. Mantêm-se em silêncio - até rompê-lo. Meu nome é Haroldo. Helena. Olham-se com o escândalo de um encontro mudo, faiscados por algum peso que o encontro entre eles curva, prestes a se desviarem dum incômodo reboliçando-se num entremeio atiçado entre seus olhares; atados um pelo outro numa aproximação que apesar do calor acrescendo-os bem de perto de perto de perto ainda assim uma espera alargada exige-lhes encontrar palavras, palavras interrompidas, coisas ditas que não lhes fermentem desatenta ansiedade desatando-lhes em esbaforidos quotidianos de ressonâncias preguiçosas e frias. Gastas. Haroldo em mero sim ao desejo de atritar-se gostoso, precipitar-se pelo caminho de menor resistência que escorrega-lhe pela vereda enquanto torce com muita força entre os dedos a carne crispada do seio mole. Helena...; arregalada não sabe quem é-se. O vigor que devasta veio nas palavras de Jacob e deixou-lhe sem um único mísero olho d’água. Mãe? Há sim esse olho, por isso em um calado espirra-se faíscas dentro dela. Haroldo desata de vez a gravata verde musgo, esparramando-a sobre a mesa. Ousam-se numa ininterrupta espera renovada - olhos nos olhos. Há uma fundura nas palavras de Jacob que encaixam-se com alta perfeição nos lábios fechados do homem à sua frente. As palavras intensificam-se acesas apesar do escuro que as engole. Sinta-me viva. Mas ela pensou em dizer faça-me viva. O odor das entrelinhas continua enterrando-se por caminhos subterrâneos. Jorrando de súbito em outras palavras. Olham-se quase enlouquecidos. Cada instante de silêncio depois da vontade de falar é um acumulo de anos. Algum germe exibe sem pudor o dom de sua autonomia; ao menos a vontade irrepreensível de lembrar. O esquecimento como impulso fervilhando dentro de seu ventre ausente. É isso. O inaudito em Helena é essa morte de tão seca mergulhada pra dentro de si. Interrompe antes de recuperar-se num sorriso agradecido ao estranho. Quer saber? Helena desata enfim arqueada. Enfim? A nossa visão da morte chega tarde da noite porque o prazer pode ser a morte do outro. Haroldo enfia a cara mais perto de Helena, dizendo. A vida é o preço que se paga para esquecer as ramificações do medo da morte. A morte. Helena desata? Encantados. Ela não consegue falar ainda o inaudito; e quando quase o diz vem essa mulher selvagem, olhando pelos cantos dos olhos com vontade de machucar e lamber os beiços, a ferida. Porque não? Mas tem que ser com alguém que não tenha medo de vermes; curva a cabeça e quase sorri, quase mesmo.

Não está mais turva apoiando-se no encosto da cadeira. Família. Quer saber? Família pode até ser algo que possa ser claramente essencial, mas família é esse bando de testemunhas caladas que não sabem o que fazer de si próprios e ficam ruminando-se uns nos outros pra confirmarem-se que a escolha feita é a cara que não apenas vêem quando escovam os dentes – olhando a água escorrendo pelo ralo. Despistam-se da barbárie quotidiana com a incredulidade lubrificando esse jogo de comparsas; complementa Haroldo. Somos essas merdinhas agonientas inventando descaminhos que nos apagam. Acendendo-nos. Calam-se desconfiados. Há uma espera que quer ser eterna enquanto dure o deserto entre eles. Entre os olhos d’água exibindo sedução, estendidos, há vulto respingando umidade imposta querendo expulsar palavras quaisquer pelas gargantas amaciando-lhes as mandíbulas enfiadas e duras. Haroldo também bebe água. Ainda que apagados alguma coisa se acende! Ainda que não ao alcance das mãos. Por isso falamos tão infantis?; parecem dizer. Olham-se surpreendidos por um barulho de trinco se fechando. Haroldo lembrou-se das armadilhas pra rato que sua mãe espalhava debaixo da pia, pelas dobras, na onda da cortina vermelho carne. Que estado é este em que tudo soa besta? Veio-lhe a sensação de Armando se mexendo pelo ventre. Veio-lhe a sensação do calor debaixo das cobertas. Por onde anda paixão? Apesar de. Quero água com gás, alguma coisa pra você? Tomo com você. Entre a garrafa de água que daqui a pouco coloco na mesa e o viro-te as costas é um mundo que arrepia-me asco. É isso, fico arredia nas interrupções. E que tal se nos esquecêssemos de uma vez por todas? E se aqui e agora começássemos uma vida silenciosa? Só em ruídos com o que for inevitável. Helena passa a mão pelo ventre e sorri triste. O homem quieto, escutando, parece tão vencido. Mas é mentira, vira-se abrupta. Cada pancada do salto alto é uma vontade de acreditar combatendo-se com repulsa .

É um descomeço; diz Helena enquanto estendem copos. Bebem. É quando se olham de volta que Helena chora. Chora até bem depois parar. Não quero saber de nada, por enquanto; pois sei que vou voltar. Vamos. Estamos. Qual de nós dois irá doer menos? Helena fica com tanto medo do que acabou de dizer. Pode ser que amanhã este capítulo de nossas vidas seja apagado. Mas é isso que eu não quero mais. Eu só não sei se meus olhos já estão abertos. Abertos ou não será que algo é diferente? Apenas me use. É isso, apenas me use. Me dê o seu prazer. Não queira adivinhar o que eu gosto, apenas me pegue e me afunde seu prazer. Eu me abro enquanto afundo-te o meu. Meu útero seria minha vingança. Meu útero seria minha vingança. Nem me importaria em saber que os dentes da coisinha miúda se tornariam fortes pra que eu não presenciasse os jatos ácidos ruindo-me num tombo bem devagar. Já não mais teria tempo pra ter que discordar da farsa. Ter?; Haroldo enfia os dedos entre os cabelos repetidas vezes, puxando-os para traz. Seu olhar são flechas invisíveis que atiçam incômodos. Há o inusitado esquivando-se esquivando-se ininterrupto. A vida sempre procura vida. Diz Helena enquanto ajeita a bolsa no ombro, levantando-se. É assim; mas isso se eu tivesse a vingança. Tivesse? Helena apenas vira e caminha sem olhar para trás. Haroldo permanece sentado antes de segui-la, olhando-a quase sumir em meio aos outros.







atentos >>>>>>>>>>>>>



Uma espécie de antiquário com seu característico cheiro arcaico. Atrás do homem enrugado segurando o machado nas mãos, perscrutando-o com reverência à beira de um reboliço de arrebatamentos, está um espelho de aparência tão antiga e empoeirada quanto o próprio ambiente. Contorno o balcão sem que o homem recurvado se desvencilhe de sua atenção. Diante do espelho experimento estranheza; represento algo, algum certo tipo de coisa que não é somente eu. Eu perante o que vejo não sou somente aquilo que vejo? Estendo a mão, ergo os dedos. Toco. Então eis que eu, ali, barro-me, não atravesso-me a mim. Tenho estado nesta ação acumulativa de pensamentos, sugerindo caminhos inusitados; alguma coisa esquiva em mim, ali, dentro do espelho, eletrifica-me os pés como se eu involuntariamente acatasse o hálito quente que emana igualmente do solo e do espaço ao meu redor. Eu não sou o mesmo e permaneço o mesmo. Olho-me. O espelho gélido. Tive a impressão de que gemi, mas nada se alterou em torno. A não ser o homem perguntando-me se queria comprar o espelho, claramente sem o menor interesse em minha resposta; ou talvez não. Ficamos em silêncio. Olhando-me por cima dos óculos de grau ele não consegue se decidir, atropelando-se em palavras que nem ao menos chegam a ser sonorizadas. Tudo nele permanece um sepulcro fremente, estacado em algum tipo de deslumbramento que não o permite sequer desatar o diafragma. Uma senhora surge do fundo da loja, ergue a cortina com uma mão sugada para dentro em veias estufadas, espana as prateleiras com pressa vagarosa. Amontoado de poeira delatada pela fraca luz direta vinda do teto. A idosa quase olhando-nos enquanto a observo pelo espelho. O homem sentindo o peso do machado, olhando as manchas escuras bem de perto. Por fim ela retorna à falta de claridade de onde emergiu. O baque da porta treme os óculos do homem à minha frente. Retorno ao lado de lá do balcão, pisando levemente em falso toda vez em que ele tosse seco.


Como. Onde conseguiu esta peça?; disse enfim. De frente para o espelho nada digo. Entre a pergunta e minha resposta compactuou-se uma dilatação onde coube a mesa, o idoso olhando-me por cima da grossa armação, a porta fechada ordenando-me imaginar a velhinha esgueirando-se altiva pelo cômodo escurecido que atesto pela fresta que se fecha antes da cortina cair, o espelho, um murmúrio das antiguidades tantas que vejo e as que não vejo, o barulho quieto da rua anoitecida, algum inseto de pernas quebradiças esgueirando-se; Armando olhando pela janela de seu quarto, direto dentro de meus olhos. Há uma descontração em seu olhar estático. Um corpo distintamente estendido, vazado de energia possante, pensativo, afundado em algum lugar que já não é seu quarto. Ainda que absolutamente distante, sem que seus pensamentos se revelem, há espessura naquele silêncio, de uma eloqüência a tal ponto estonteante que tenho que me segurar para não sacudir-lhe. Foi um soco no estômago vê-lo embalsamado, em tamanho relevo reflexivo. Algo em mim treme com o silêncio de sua quase imperceptível respiração. Dou alguns passos em seu rumo. Seu cheiro fresco de suor, nas têmporas, na parte lateral da face. Atravessando a bochecha estira-se marcas fundas e avermelhadas de alguma dobra que pode ser do travesseiro ou do lençol. Uma noite inteira do lado de fora que ele nem parece aperceber-se. Vulnerável, perigosamente afável, suavemente severo, estacado diante da janela como se uma gravidade biológica estivesse sendo desafiada. Vem-me à mente um filme, não lembro-me qual, dizendo em uma personagem, “não me preocupo com o que vai acontecer, mas com o que deve ser feito.”


Olhando o velho, algo naquele olho nublado, parece que quase toco minha angustia. Há tormenta em Armando. Face de quem sabe por ter sido testemunha; força, potência estrondosa de absoluto abandono que é desarmonia cortante em um corpo jovem. Avermelho-me envesgando uma quase pergunta. Afasto-me sem que ele sequer tenha percebido minha presença. Fecho a porta bem devagar tocando no fundo do bolso a página arrancada da lista telefônica, com o endereço do antiquário marcado. Então respondo ao velhote. Vejo-o terminar de colar os lábios e falo; foi meu filho quem encontrou em uma cabana qualquer, afastada no meio da noite. Limpo a garganta. O velhote torce o nariz; parece ter sido confeccionado há não menos que um mês, e ainda assim é fato, quer dizer, é como se este machado fosse uma rara peça do século XIV ou XV. É quase evidente; murmura aturdido. Ele balança o peso de madeira e metal com carinho; e algo mais, sim, algo mais; não sei bem o que, mas é algo que me afugenta de leve. Uma sensação muita bem escondida, enfiada em alguma daquelas rugas; e ainda que eu não consiga decifrar eu sei que esse algo está ali, estampadamente oculto em seu rosto. Um sangue quase vivo, juro, quase vivo. Ele diz ‘quase vivo’ uma vez mais e é quando um vulto atravessa-nos pelo espelho. Não sobressalto. Quase o capturo, apesar de sua usual locomoção escapadiça; permanecem riscos de tecidos musculares, veias em rabisco, a ponta de uma artéria cortada curvando-se em arco, dois ossos da perna colados um no outro, um olho inacabado com grande parte da retina cintilada, olhando-me olhá-lo. Sinto frio nas pontas dos dedos que tocaram o espelho. Me conta histórias de pequenos vilarejos esparramados em meio às árvores, situa-me uma específica terra entre Alpes, fala-me de corpos quebrados, desmembrados, orelhas cortadas, mulheres e homens dependuradas de cabeça para baixo com pernas escancaradas, coleiras de ferro apertando tornozelos e pescoços. Viro-me de costas enquanto o velhote continua falando em voz alterada, deslizando de leve o dedo pela curvatura pontuda do machado. Viro-me de súbito. O velhote inchado de obsessão desmedida, entornando palavras que não consegue estancar. Estendo-lhe a mão pedindo o machado. O cheiro de carne queimada. Agradeço olhando-o no redondo castanho escuro dos olhos, faço um gesto com a cabeça. Vento corre entre nós, vindo e indo para onde a velhota desapareceu. Ele me segue até a porta ainda falando de bicos de seios arrancados, quase em suplica. Eu mesmo abro a porta. Sininhos chacoalham-se. Uma noite levemente fria e deliciosamente úmida. Meu sapato afunda na grama sobre a terra fofa, pedaços do entorno brilha nas poças d’água. Choveu enquanto estava lá dentro? Coloco o machado no banco de trás. É quando vejo o casal encostado na porta de vidro. Distancio-me com a sensação de estar recurvado por sobre o volante.


Minha espinha está ereta, meus músculos relaxados numa contração natural. Não ligo o rádio. O som da noite, das conversas nas mesas dispersas pelas calçadas, ou vindo do fundo dos bares. Dirijo. Decifro o modo como as pessoas pisam ao caminhar, contornam-se por uma mesa, um corpo. Sigo ao léu parando em semáforos. Num súbito, antes que acelere, no momento em que o circulo acende-se verde, vejo Helena. Um homem acompanhando-a, envolvendo-a pelo braço em um afago que me alfineta o peito. O carro colado na minha traseira buzina insistente. Afundo o pé no momento em que Helena me avista.







esqueleto >>>>>>>>>>>>>>



Paulo ainda tem a chave. Morou desde os nove anos com a avó. A porta continua meio que emperrada, o trinco solto. Ela esta sentada no sofá. A luz da televisão mostra-lhe o rosto, parado; depois seus olhos se abrem e os músculos na altura da bochecha empurram-se para cima. Levou certo tempo para sorrir: do mundo em que era somente ela até o mundo em que estavam ambos, ali, havia uma distância carregada de silêncios esburacados. E os buracos eram valas que por vezes tinham anos luzes. Lembrou-se, enquanto caminhava até ela, da ossada de um rato que um dia encontrou na fenda apertada entre as duas almofadas da poltrona da sala. Seu lugar predileto. Depois daquele dia nunca mais sentou-se ali, ao menos não quando ele estava em casa; lavou as capas que antes eram cor púrpura, mas que agora têm um vermelho bem clarinho. Já está com oitenta anos, ainda este ano; caminha sem ajuda de bengala, tem pernas grossas, ancas fortes, faz crochê sem a necessidade de óculos. Sua barriga é estufada, não porque seja gorda; ela nunca disse, mas Paulo acredita que seja devido a algum tipo de complicação que ela herdou das noites em varava a madrugada costurando. Passava a noite segurando a vontade de defecar, permanecendo de bunda amassada no banco até que terminasse as calças jeans que pegava aos quilos numa fábrica. Durante o dia lavava trouxas de roupa. Nesse hábito acumulado de barrar o bolo fecal chegou a vomitar fezes durante muitos anos seguidos. Quando criança Paulo sempre sentira falta do teu cheiro, o cheiro característico dela. Mais tarde percebeu ser cheiro de bosta. Vou preparar algo para você comer. Não precisa; diz apertando-a antes que se desvencilhassem meticulosos. Sentam-se de frente para a televisão. Ela permanece segurando-lhe a mão, aquecendo-a na altura do ventre. Estava com saudades, vou dormir aqui hoje. Ela sorri satisfeita; vou pegar um copo d’água, quer um pouco? Eu pego. Não, eu pego; as últimas sílabas soaram quase ríspidas.


Ergue-se altiva. Por um instante despista-se a angustia com tamanha eloqüência que é como se nada daquilo existisse - toda aquela escuridão, as cortinas fechadas, o cachorro endoidecido pela presença de Paulo, acorrentado no pé de goiaba, seus curtos passos rumo à cozinha, a rosa branca ao lado da televisão, que provavelmente trouxera da missa que freqüenta no fim do dia; como se tudo em torno fosse um equívoco, uma miragem que os olhos de Paulo não precisam acreditar. Com o passar dos anos o mundo dela tornara-se impenetrável. Há quanto tempo eu não ouvia a gargalhada de Silvio Santos? Quantos dias em vão ela deve ter esperado por uma visita? Tantos dias que já nem deve mais se importar. Será? Será que realmente não mais se importa? Vovó nunca soube escrever, mas quando criança, enfrente ao tanque, ditava-me coisas que ela dizia serem encantos cantados sem música. Paulo olhando, sem realmente ver oque provocava o compasso daquelas luzes iluminando-lhe a face. Paulo recobrou-se do devaneio ao ouvir as respirações raspadas de ânsia, que a cada ano soavam mais e mais arranhadas e, estranhamente, angelicais. Curva-se oferecendo-lhe o copo. Seu cabelo está mais longo que antes e bem mais volumoso, cobrindo-lhe as orelhas; em seus lábios um batom discreto, ela sempre carrega batom dentro do bolso do vestido. A qualquer hora do dia lá está ela arroxeando os lábios. Amanhã de manhã a gente pode subir no pé de goiaba. Você não viu, mas ele tá carregado, lindo de ficar olhando. Seu rosto ilumina-se; eu me esqueci, eu me esqueci, eu fiz doce de mamão verde, quer? Paulo acena que sim. Afasta-se resmungando o quanto esquece coisas nestes últimos anos. Para repentina virando-se para as cortinas. O vento na vidraça. Sempre o vento na vidraça antes da chuva; declara. No caminho até a janela ouve-se um estralo. Paulo gira o pé e vê uma barata esmagada. Empurra-a com a ponta do sapato para um canto. Escancara as cortinas. Pega a chave e abre o cadeado na alça da janela. Um ramo de árvore cutuca afoito a vidraça. Paulo recorda a última vez em que comeu goiaba do quintal, estavam cheias de bicho. Permaneceu na superfície, na casca, distraidamente alerta. Quando menino você vivia dependurado em seus galhos; diz pousando a mão sobre sua omoplata. Paulo resmunga que sim com olhos parados nos retorcidos nacos do pé de goiaba emergindo-se do ambiente escurecido. Na tigela o doce esverdeado estendido em meio à grossa calda; sua boca incha de saliva, comprime os lábios com satisfação. Ele come de pé. Ela range descontrolada com o vento frio. Tosse uns ruídos entupidos, cheios de galhos e terra e folhas na correnteza de um rio alargado após uma tempestade. Ela retorna rapidamente ao aconchego do sofá. Ele a acompanha depois de fechar a janela. O vento assoviando na curva dos galhos. Finge estar atenta ao controle remoto enquanto muda de canal; mas seus olhos estão mesmo é cintilantes sobre ele, saboreando o prazer de Paulo enquanto mastiga o doce. Finalmente a chuva cai. A fresta na janela não contamina o interior de frescor.


De súbito sua face adquiri uma expressão de ódio, olhos arregalados, face enrugando de um horror dos diabos; seu braço esquerdo atira-se arrepiado em direção ao pescoço de Paulo. Sua mão espalma a parede num estrondo estralado, a milímetros de sua nuca. Na palma de sua mão uma barata esmagada. Malditas monstrengas, e não é que estão cada vez mais entronas? Vai até o banheiro resmungando palavrões interrompidos. Se você tivesse me dito que viria eu teria entupido essa casa de inseticida. Paulo não consegue sorrir. Como vai seu amigo?; pergunta enquanto retorna à sala, retirando-lhe das mãos o vasilhame vazio. Acompanha-lhe até a cozinha. Eu não sei direito. Alguma coisa aconteceu, sei lá. Vejo coisas. Sinto-me em alerta pra situações que antes eu não parecia dar muita importância. Vejo coisas que antes eu não via; vejo coisas que antes eu via de um jeito diferente. Pra dizer a verdade eu não saberia como te contar o que tem acontecido. A água derrama-se vasilhame adentro já quase até a borda. Quando olha sua avó já está rumando-se de volta ao sofá. Não pense que não ouvi o que disse. Paulo estanca a água que transborda; esquecida. Parece até que você está falando de mim mesma. Ela segura-lhe a mão e conta-lhe as peripécias dos parentes - que ela insiste em visitar pelo menos umas duas vezes por mês. E que Paulo não vê há mais de uns cinco anos. Mas é tão difícil para ele esconder o desinteresse que Olívia cala-se. Preciso tanto dormir. Paulo sabe de seu costume; o de dormir com a televisão ligada. Beijam-se com um abraço torto, desfocado do calor que deveria dali faiscar-se no exato instante em que atritam-se.


Deitada ela parece à beira de ser afogada pelo próprio corpo. Ele permanece olhando o teto, encolhido no sofá, à espera do calor que só vem mesmo quando já está quase por completo embalado pelo sono. Sonha com chamas que não queimam e não têm cor de fogo.








carne >>>>>>>>>>>>>>>



Atada à mente. Sua mão rasteja vagarosa pela borda da carne vermelha. Com as pontas dos dedos, calada, vai violando uma fresta por onde escapa farrapos de luzes coloridas. Estourando bem devagar o pedaço de ambiente até então estendido na penumbra escura. Num súbito parece que somente a sombra dos dois permanece, como que destituídas de corpos. Ambas faces clareando pensamentos castigados pela presença um do outro. Será que ele está lá fora, em algum lugar escondido? Helena contorna o sofá e se senta. Enfia as mãos entre os joelhos como se fosse escorregar para dentro. Matei minha mãe. Nesse dia pensei que esqueceria a vontade de matar; diz Haroldo em mãos soltas, pesando como se chamassem o resto do corpo para algum trajeto que anseiam cavoucar. Helena desenterra-se de dentro de suas pernas esticando o braço, buscando alcançar, em vão, o porta-retrato com a imagem distorcida e ofuscada pelo brilho vindo do lado de fora. É o que dizem, temos todos que cortar o cordão umbilical. E quanto mais cedo melhor; parece finalizar enquanto aproxima-se da imagem. De costas distingue sua silueta pelo porta-retrato. Vou te confessar; há momentos em que olho Armando, meu filho, e não sei o que vejo. Sabe assim? Dói muito, entende? Arranca o esmalte com a ponta das unhas. Vento morno com luzes agudas da noite atravessa a cortina. Olham-se direto nos olhos. Um desconhecido. Mas antes, muito antes. Ao menos antes havia ganchos distraindo-me em vidas por onde equilibrava-me. Agora sou eu. E eu. Morta de medo, louca para que o dia que surge esteja pronto, sem a necessidade que eu decida nada de merda alguma. Já te aconteceu de num súbito esquecer o próprio nome? Fico nessa, desde o dia em que meu marido me contou que tem o vírus, caminhando por aí, buscando alguém para achar lindo enquanto acordo. Só para que eu própria não esvaia de mim mesma. E você? Haroldo com a mão na nuca. Eu tenho fôlegos finalizados em minhas mãos. Me recordo de cada sentimento de paz quando, deitado pelo meio dos seios, me esqueço que o corpo esfria; e que fui eu, com minhas próprias mãos, quem interrompeu-lhes a dor que provoco. Sem expressão, ainda no aguardo de dar uma continuidade mais palpável à confissão ancorada, entalada. Vontade desatada em função do modo inebriante de Helena, quase à beira de um descontrole. Meu Deus, como amo Aurélio. Como sinto falta da relação que construímos. Mas daqui, por trás destas cortinas, de costas para o mundo lá fora. Uma coisa morna é o que vejo. Eu nunca mergulhei de verdade no dia-a-dia. Será que eu sabia disso antes? Será que eu sabia disso enquanto dava bom dia à empregada? As paredes abarrotadas, transbordando em camadas cada vez mais e mais com as palavras de Helena; palavras sedentas por palavras incessantes, famintas. Essa vontade de matar sempre volta. Helena vira-se de costas e fecha os olhos. Você entende que eu morri? Eu quero morrer assim. Haroldo dando voltas, repetindo baixinho; essa vontade de matar sempre volta.


Haroldo na porta da cozinha. Olhando-a. Seu rosto, o de Helena, de uma palidez desconcertante, movimentos respiratórios lentos e subitamente salpicados por solavancos profundos; seus gestos desnorteados sufocando a pele com uma cobertura reluzente. Da cozinha ouve-se quase soluços. Na borda do ralo Haroldo vê seu reflexo, um pedaço quase não identificável de seu olho. Quase entornado pelo buraquinho escuro e com cheiro de gordura. Está quase à beira de um pulo, uma alegria que não compreende, pois parece que o chamado não mais se fará. Sim, aquela vontade de cheiro de mofo e de naftalina não lhe fisga mais. Não mais? Não mais? É isso, vou fazer tudo como deve ser; o pensamento ecoando-lhe pelo crânio, parado, em leve hesitação antes de retornar à sala. A voz de Helena entornando-se progressivamente potente, próxima; o que deu nele, afinal, deu para me seguir, me vigiar? Haroldo estende-lhe um copo d’água. Ela bebe enfiando-se ainda mais para dentro das dobras da cortina, de olhos levemente estourados. Você consegue vê-lo em algum lugar?, consegue?, consegue?; a cada palavra acumulada ela soa impenetrável e estranhamente cheia de poros. Ela inteira é uma esponja ávida. A água desaba pela garganta. Helena engasga. Entorna água pelo chão. Contorna o sofá em tosses que lhe contorce numa falta de ar avermelhando-lhe a face. Quase senta no sofá. Apertando uma mão contra a outra, olhos lacrimejantes, respiração recortada, afugentando-se em passos pelo ambiente. Não consegue parar de tossir. Avermelhada de súplica. Haroldo olha-a, também engasgado. Tira a gravata com calma, estufa o peito enquanto pede-lhe o copo vazio. Ela caminha alastrando as poças d’água. De leve um tremor salta-a imperceptível, ou quase. Meus Deus; pensa; estou à beira de algo, pois que sempre tive este modo absoluto de me controlar diante dos outros. Nunca, nem mesmo com Aurélio eu me permitia exacerbar por demais os meus sentimentos quando demasiada frágil. Mas aqui, diante dele, Helena evita-se a tal controle porque atingiu alguma espécie de fim? De começo. Ela pensou em perguntar sobre o pai de Haroldo. Mas antes que pudesse falar alguma coisa seus corpos e rostos estavam por demais próximos a ponto de beijaram-se. Não houve espaço nem tempo para que uma possível resistência sequer fosse uma probabilidade a ser cogitada.


Assopra hálito para dentro da boca de Helena. Ela pára breve, sem abrir os olhos. Coração de Haroldo trinca agudo uma miragem dolorida; uma boca torta e parada à beira de uma palavra que mantém-se à espreita. Deve ter sido algum código na entrelinha da batida cardíaca. Seguem-se aproximando-se a cada pontada. Dedos, pêlos, cílios são tentáculos. Precipitam-se pela curvatura que o peso do quente de ambos esquadrinha. Cravam-se roupas ao chão. Salivam cada fenda, onde a propulsão para continuarem perseguindo-se é imaginarem as fissuras que os dedos, as línguas, as saliências nas palmas das mãos e em toda a extensão que a pele recobre, ainda iriam percorrer. E por ali agitarem a quase insuportável quentura que se expande. Umidade salientando-lhes os contornos da nudez. Retina em retina durante o beijo; e foi na curva da íris que ambos avistaram um vulto. Helena sacoleja-se rastejando-se rumo à cortina vermelho carne. Haroldo de pernas abertas com cotovelos fincados no assoalho. Eu, eu queria tanto conseguir fazer média, sorrir apesar dessa aflita loucura que me consome pelos sentidos; eu não aceito nada, eu sou essa merda de transgressora na vida. Ou quem sabe melhor definição seria uma puta de merda de medo, melecada de angustia. Eu queria tanto ser normal. Eu queria aprender esse jogo de comparsas. Helena de joelhos, com a cara enfiada pela fresta vermelha, com as nádegas abertas na direção do rosto de Haroldo. Mas quem disse que eu não posso ser? Será que por ingenuidade escolhi o caminho que não sou eu? Puta cara, que merda; eu queria ser feliz; é a merda do apego, é a merda do apego; eu queria ser uma alma que eu não encontro nesse corpo comprimido; eu queria deitar, ficar quieta – amassa os seios. Queria voltar a ser feto e nascer de novo, ou não nascer. As palavras jorrando antes mesmo que a boca gesticulasse o devido som. Pane total. Estamos todos tão vivos e tão empedrados; eu acreditava tanto na humanidade, mas eu perdi todos os meus sonhos. De súbito Helena sente o cheiro da umidade dos lábios de Haroldo, lambendo-lhe o ânus. Não, eu não quero a perfeição, mas me dói demais ver tanta dor, tanto susto, tanto medo sendo talhado como que normal. Quer saber? Empurra-se para o canto onde as paredes encontram-se. Eu queria viver eternamente. Haroldo com as mãos espalmadas no assoalho, olhando-a incrédulo. De bolas e pênis rijo à beira de uma queda. Afunda-se na dobra das paredes. Mas um dia eu vou morrer de cansada. Eu sei, eu sei que a vida é bela, mas agora eu não encontro impulso algum; eu sou uma mulher lacrada que se perdeu pelo caminho, e o que me resta é superar-me; mas eu não encontro forças, eu não encontro nada dentro e fora de mim mesma que possa forjar-me um magma; meu Deus é tanta mentira, tanta merda sendo dita e feita; eu me sinto usada, manipulada, e ainda assim eu me pergunto se tudo isto é porque alguém deseja que a vida, no futuro, adquira mais resistência diante de alguma merda de segredo. Eu me esfaqueio e gosto. Eu queria gente conversando e construindo a vida, gente expondo-se, gente dando vexame. E o que sempre fui? uma comporta barrando meu próprio vexame. Outras vezes eu só quero é fechar o vidro do meu carro e ficar bem longe desse bando de gente sem libido, empanturrados de miséria e submissão. Eu me saboto. Helena se atropelando, perfurando o cimento tapando-lhe os poros. Me desculpe por chorar assim, me desculpe, me desculpe; me desculpe, mas sabe o que é que eu acho da mulher?, acho que ela é um monstro que mastiga o mundo que contraria o seu instinto de abrir as pernas e parir e cuidar da cria; a mulher carrega o mundo, e dependendo de sua condição ela pode jogá-lo no chão. É como vejo agora. Tenho pavor de ficar pobre, sabe porquê? Olha-o em quase berro, narinas alargadas. Sei que vou ser tão submissa e derramada de medo tanto quanto qualquer um destes merdinhas. Agora, agora, agora. E meu medo de agora? É tudo mentira o que digo; pensa oculta. Posso sair daqui agora, ouvir o último cd do Rufus, pintar o cabelo, contratar alguém pra me acordar bem cedo e me fazer fazer ginástica. É muito fácil comprar elogios, meu amor. Você não sabe, mas sabe o que é que eu queria agora?; eu queria pedir pra deitar no colo do meu pai; mas eu não consigo, eu não consigo; meu pai é uma muralha e eu também – só que ele é essa muralha tão devastadamente antiga que já é pó. É isso, a gente é um bando de pessoas que precisa de datas e situações pra se abraçarem, festejarem-se, apertarem-se, afastarem-se. Temos tanto medo do ‘não’. E quer saber de uma coisa?, não tem como não assim ser. Haroldo sugando-lhe o dedão do pé, seguindo o cheiro que a vagina acolhe. Eu só quero chorar, tesão. Eu não vou me matar porque é muita vergonha. Imagine só que vergonha é se matar. Você liga lá em casa procurando por mim, e cadê eu? Eu me matei; não, isso não, é muita vergonha; mas eu sei, eu sei que chega momentos em que é como se não tivesse nenhum outro caminho; e eu não tenho ânimo pra nada. Eu só sei que preciso da sensualidade pra acreditar, mas eu não acredito mais em mim; sabe o que é que eu preciso?; eu preciso que alguém me diga que eu sou linda e me faça linda; é tudo tão simples, não?, maldita mimada que sou. Já passei dos trinta e já não mais tenho os artifícios que eram-me tão facilmente viáveis e à mão. Sou uma mulher lacrada, que provavelmente vá acabar dizendo 'não' àquele que me chame de linda. Eu preciso encontrar a minha sensualidade. Haroldo com a língua em seu cotovelo, dando voltas em torno da fissura. Helena esgueira-se como um réptil para detrás da cortina. Pela fresta avista-o recuando, irritado. Me dá um beijo. Me aquece. Haroldo parece ter desistido de avançar-se sobre ela, tem os braços envolvendo o próprio corpo. Escorregando pelos ombros até o pescoço.


Seu olhar é meio que débil enquanto balbucia; e Armando já não é mais meu. Helena olha-o em afronta. Haroldo calado, com lábios entreabertos. Quem sabe fomos feitos um para o outro? Você aceita alguém com a morte entre os dedos? Você quer filhos? O homem sorri quase infantil, de um consentimento tal que a mulher afunda as unhas no meio da palma. Eu já não mais posso ter filhos jamais, eu tornei-me áspera por dentro. Tem um oco aqui. É só um buraco sem vento. Meu útero se recusou tanto a morrer que secou. Teve que ser decepado, cuspido antes que iluminasse todo o resto de um fundo descabido. Vomita-se o farrapo. Inconfessável.








corrosão >>>>>>>>>>>>>>>>



Ele está perto. Nestes últimos dias, desde o instante em que segurei o machado, o rastro entremeia-me com cautela. Recuo-me aproximando-me. Nas últimas horas, à medida que a musculatura em torno dos olhos retesa-se com uma naturalidade independente da articulação de outros músculos, em especial os da face, o rastro percorre-me não mais com o seu característico escoamento irrestrito, como se me invadisse terminantemente. Conforto-me de um rosto aparentemente sem expressão alguma. Serenidade viril infiltra-me como se mastigasse cada uma de minhas células numa fluência que me alarga. Meus pés adquirem um peso tal que o solo parece absorver-me o calor com menos obsessão. Estendo uma curvatura desarticulada do fatídico frenesi que acreditei ser-me infalivelmente eu por tempo suficiente para que eu não me tolerasse mais. Há uma voz que não ouço, mas ela está ali, aqui, cutucando-me um compromisso - que ainda escapa-me. Não distingo, mas sei que em algum canto não há o menor receio em mim em permitir-me ao ímpeto. Por vezes sinto como se tudo em torno estivesse à beira de um resvalo íngreme, e provavelmente o seja conforme o discernimento que materializa o entorno. Pressinto um peso de carne em mim. Contorno-me em alerta, desperto como se sonhos e pesadelos fossem artifícios humanos progressivamente insuficientes. Só existe a realidade, e ela é tudo isso que vejo e não vejo e sinto. E não sinto; acrescento num murmúrio.


Há uma nitidez esquiva em mim; inquieta, enraizando-se, definindo sua própria face para logo em seguida precipitar-se para onde está um algo sem face. Uma espécie de nitidez necessariamente inquieta, harmonizando-se a todo momento com cada naco que é-me, por mais indizível que o seja; sempre aqui e ali. Um fundo eu-&-não-eu alastra-me a mim, inteirando-me lúcido à espreita. Trago o cigarro; uma involuntária careta labial espicha-se pelos cantos, empurra a bochecha. Em torno dos olhos mantém-se serenidade. A lua destaca-se no retrovisor; imagino o machado impondo-se sob sua claridade. Escuto um sopro que me precipita a uma convocação que não me repugna. Fascina-me. Não hesito, persigo-me com uma espécie de curiosidade sensual, quase insolente. O rastro esvoaça-se em meu encalço num inusitado silêncio fundo, curioso pelas minhas escolhas, demarcando uma distância que, agora percebo, tem muito haver com o modo como detenho-me apercebido dele. Há uma mistura de cautela e desejo no rastro. E em mim também; saem-me as palavras em voz alta.


A madrugada é de um escuro claro. Projeto o corpo para frente como se empurrasse o carro; quase devagar, por uma estrada de terra alucinada pelo farol. Uma ereção me surpreende; apalpo meu pênis, a palma da mão inunda-o, limita-o num invólucro que fermenta calor escorregando-se pelos dedos envergados. Oculto entre as árvores o veículo é ininterruptas frestas detectadas pelo quente que a lua lança. Coloco a carteira de cigarros no porta-luva. À medida que avanço-me rumo à casa de Consuelo alargo-me um contentamento espontâneo. Franzo o nariz. Há hálito, cheiro, sim, sim, um cheiro, um quase afago sobressaindo-se, como que exalando do rastro. Desdobramos um por sobre o outro na medida em que a estrada de terra se desenrola. Um aroma de mato, de árvore, de barro, de minhocas; de minhocas? Sinto cheiro de minhocas. Não sabia que conhecia com tamanha exatidão o cheiro das minhocas. Respiro fundo; os olhos precisos, velozmente conectados aos braços que desviam o carro de buracos. A testa ondula-se. Eu também conheço o gosto das minhocas. Uma faísca de luz abre uma imagem nítida que não me desativa do caminho que o farol alumia: um menino nu, cabelo esbaforido, grandes unhas afundando-se na terra, capturando minhocas que leva à boca. Não são apenas minhocas, salivo o gosto de inúmeros espécimes de insetos, engulo com a nítida impressão de nacos e fiapos quebradiços percorrendo o esôfago. Sinto os gostos. Sei dos tipos de insetos conforme os gostos antes mesmo de visualizá-los. Há vermes; vermes na carcaça de um lobo. Involuntariamente afundo-me no encosto do carro como se desejasse escapulir-me; cada estalo de tecido muscular cutuca-me um resguardo. Afasto a imagem como se a guardasse para mais tarde. Recurvo-me ao porta-luva, paro em recuo antes mesmo que o ante-braço possa acionar o arco palmar.


Súbito vem-me a sensação de um rosto, um rosto de uma personagem de algum filme que está quase, quase na ponta da língua. Esforço-me em lembrar; loiro, sim, um rapaz loiro. Um rosto, um rosto de uma passividade enganosa; em verdade um rosto com a calma dos que sobressaem-se ao medo com a exatidão de corpos resistentes, corporeamente solidificados assim. Um filme de ficção científica. Um rosto no espaço. E que silêncio meu Deus, que paciência; ou seria persistência? Ambos!?! Avisto a casa de Consuelo. O peito se contrai, as costelas apertam os pulmões; esforça-se em visualizar limites que perde de vista na ânsia de engolir ar. Sente cheiro forte de carne podre antes mesmo de desligar o carro. Praticamente ataca a fechadura do porta-luvas. Permanece esfregando a unha do polegar esquerdo na curva funda abaixo do lábio inferior. Não acende o cigarro de imediato, antes posiciona-se de modo que aprecia um acumulo de nuvens enegrecidas afastando-se, descortinando um manto de estrelas que provavelmente não podem ser vistas da cidade com tamanha acuidade. Traga fundo; sorri. Eu sorri?; olha-se no retrovisor e seu rosto está ali, nem mais nem menos, apenas ali, diante de si mesmo sem exacerbações; plácido. Este cheiro; esse cheiro não pode ser outra coisa. O ruído de uma coruja confunde-se com o ruído que sai de sua boca. Abre a porta olhando na direção do escuro em torno dos troncos, nos troncos; há uma membrana de troncos de árvores por todos os lados, e em meio a elas esse negrume que por um quase disfarça-se de troncos. Permanece girando o corpo à procura. Seu som é gutural. Do negrume desprega-se nítida a coruja sacudindo asas; um galho mantém-se em vacilo por alguns segundos. O som das folhas e do balé robusto de suas asas são os únicos ruídos guiando-lhe a visão. A coruja pousa no topo da varanda encarando-o; o cheiro retorna quase gradual, feroz em sua continência. Seus grandes olhos alaranjados é o céu que o acolhe enquanto os degraus rangem. Empurra a porta com o cigarro na boca.


O passo pisa na brasa. Pressiona a manga da camisa sobre nariz e boca; respirar com dificuldade não incomoda desde que o cheiro azedo não se acentue em queimação pelas narinas adentro. Silêncio de entulhos desordenados pela sala. Vai até a cozinha na procura de luvas. Bebe alguns copos d’água que misturados ao fedor embrulham-no o estômago. Não encontra luvas. Aperta um pano de prato limpo contra a boca e o nariz. Consuelo tem o hábito de cultivar plantas, então não deve ser difícil encontrar uma pá. Sai pela porta dos fundos, encontrando-a num canto com vasos, sacos de adubo. Segura a pá pelo cabo já seguindo o vôo da coruja penetrando-se para dentro do negrume úmido entre as árvores. Finca a pá na terra e a ave pousa, olhando-o. Joga terra para os lados, joga muita terra para os lados. Os ruídos da noite acumulam-se nas pazadas. O suor escorrendo pela curvatura das costas. Tira a camisa. O vazio com terra pelos lados já é de uma fundura pouco abaixo do mamilo. Um vento respingado de chuva gelada desaba de uma só vez; e com o mesmo estralo que chega, parte. Foi breve, mas suficiente pra molhar-lhe frio. Aurélio não vê o fundo da fenda que cava.








escápula >>>>>>>>>>>>>>>>>



Jatos em gotas velozes despencam-se pela cabeça de Armando. Água quase fria umedecendo-lhe, descascando-lhe o excesso que escorre pelo ralo. Seus dedos enrugados de tão amolecidos. O banheiro é conjugado ao quarto, de onde vem música, voz feminina rouca, estridente, esticando-se em rasgos de "... blue ... little..."; murmúrios de suavidade gritante. Espalma as mãos no azulejo. Água escorre pela nuca, pela curva nas costas, pelo quente entre as nádegas. Daria tudo para ter Paulo agora; ali, embaixo do chuveiro. Sua respiração ainda mantém-se descompassada, não tão paralisante como quando diante da janela. Sentiu medo, imenso medo, e quanto mais busca descobrir a raiz daquele medo, com pés desapercebidos do solo, tornozelo amolecido, sem decidir-se em qual imagem ou sensação afixar-se, maior é a asfixia comprimindo-lhe os ombros. Mas este medo estranhamente surgiu-se somente após a percepção de sua própria respiração a caminho da paralisia; antes não havia medo. Não havia? Antes não havia medo, era desejo; declarou-se arqueando a sobrancelha. O vapor no box aparta-lhe do espelho, do vaso sanitário. É alta madrugada e há quase uma hora estaca-se ali, ali, ali; olhos entreabertos seguindo o fio de água que goteja rios d’água. Dobra os joelhos.


O rosto confunde-se com as árvores, as folhas arrastam-se com o vento, as nuvens bóiam no céu lá no fundo da poça d’água. As árvores desviam o menino espichado das alfinetadas da chuva pesada e brusca, em pleno dia de um sol insistente. Ajoelhado, a ponta dos cabelos escorridos tocando a água empoçada entre raízes, que ele lambe e engole. A chuva cai, gotejando-se pelo nariz até a poça d’água. Algum ruído eriça tanto o menino como a coruja que sacode as asas, pousada na ponta da pedra; ele afasta-se de costas com mãos em garra, joelhos cuidadosos e olhos atentos. Penetra o buraco escavado no tronco da árvore. Encolhe-se à espera. Um fiapo de sol resvala-se para dentro do negrume do esconderijo. Distraído aquece a mão na presença eletromagnética. O corpo inteiro arrepia; a carne saltita em olhos de calafrio. A mão mantém-se pousada, suave e intacta. Nacos ínfimos de luz serpenteiam-se pela curvatura palmar, rodopiam-se entremeando em estalos a artéria radial, escorrem-se pelos poros, pelos forames das vértebras. Os órgãos esquentam-se; os estilhaços de luz deslizam-se pelos cílios num uivo de cintilante desvario rumo à retina. O menino sacode-se num ritual que estimula um progressivo fenômeno convulsivo. A energia suga-o numa espécie de corrosão desviando-lhe da carne. Locomove-se um grito parado. Abre os olhos no instante em que o peso radiante invade-lhe o córtex. Armando aperta os olhos e por um instante está em câmera-lenta numa pista de dança com Paulo, maleáveis e bêbados. Mas a imagem que lhe fala impera seu tom, o som que lhe conta.


Uma cauda láctea vaza da cavidade da árvore. O corpo do menino amacia-se pelos apêndices escamados no de-dentro alargado do tronco; lascas pontiagudas. Perfura-se inteiro enquanto a luminosidade derrama-se alinhavando-se pelos afagos contundentes entreabertos carnudos. Levanta a cabeça numa espécie de susto saltado, com o rosto respingado de barro. Olha para a árvore ao lado da cova. Olhos fincados no buraco negro, de onde duas raízes gordas serpenteiam-se em sua direção. Esfrega o suor da nuca, da testa, pelas abas do nariz. Sai de-dentro da cova usando a pá como impulso. Estende-se breve, averiguando a mancha escura socada no tronco. Enfia a cabeça para dentro da cavidade sem a menor hesitação. Sente um alívio inusitado e resvala-se inteiro para seu intimo. Recosta-se em seu fundo como se se aconchegasse para dentro de Helena. Vê olhos alaranjados pousados num dos montes de terra apontados em sua direção. Um grilo debate-se estridente pelo oco. Armando amolece-se na dobra do azulejo; permanece num limbo dormente. ‘Tryyyyyyyyyyy...’; estilhaça-se a palavra pelos soluços escorregadios da cantora. De dentro da cavidade puxa a manga da camisa esparramada pela terra. Olha a foto de Consuelo e seu companheiro. Retorna-a amassada para dentro do bolso. Armando estira o braço ainda com os olhos grudados no ralo; assim permanece, esticando-o até que olha para cima e percebe que sua mão não alcança o registro que pode estancar a água.


Soerguem-se juntos. Armando caminha para o quarto, molhado e desnudo. Aurélio caminha abotoando a camisa rumo à casa de Consuelo. A coruja mergulha do alto da árvore em grandes asas abertas, pousando com leveza em sua escápula. Armando faz flexões; a glande do pênis dependurado toca a toalha solta pelo chão. O ar alarga-lhe os pulmões na medida em que os tecidos musculares ampliam-se. Enquanto fragmenta o descompasso do ar enraizando-se tão além pelas vias respiratórias, eleva as mãos em direção ao teto e procura tocá-lo, inspirando insistentemente fundo; a espinha estica-se por uma altura que seus olhos acendem-se curiosos pelo ambiente. Flexiona-se até as pontas dos dedos das mãos tocarem o chão embaixo dos dedos dos pés erguidos para cima. Sangue revigora-lhe a face. Seu corpo adquiri um peso que precipita-lhe em proteção às sensações que o arrepiara diante da janela. A compreensão de então era de uma vastidão que agora ameaça anuviar-se. Retorna à posição inicial e uma vez mais estica a medula rumo ao teto, insistindo-se em alcançar uma consistência corpórea que não acabe por negligenciar o vigor em sua mente. Na música seguinte uma voz feminina distinta, destacando-se num timbre e numa postura quase adolescente, soluçando e gemendo uma interpretação à capela, perseguindo-se numa introspecção de ruídos eletrônicos. Armando pensa no quanto que apesar da distância de quase quarenta anos entre uma cantora e outra, ambas parecem tocar na mesma tecla; ainda que uma certa espécie de resistência biológica empene um salto entre elas, reforçando esse modo novo de resvalar-se. Veste-se decidido a sair. Para onde? Cospe água misturada com pasta de dente, esfrega escova na língua, cospe mais e mais e mais água. Ainda assim a sensação de incômodo permanece grudada na língua. A avó de Paulo mora perto. Uma espécie de angustia, de vontade barrada, uma sensação de que uma comunicação entre eles deve permear-se epiderme em epiderme refresca-lhe, ainda que um zunido pressagie uma náusea distante, quase como se não existisse.

O menino e a luz anovelam-se numa intersecção que impõem presença. No instante em que Aurélio pisa no degrau da varanda vacila-se morto, para já no segundo degrau acumular-se em uma acuidade vigorosa. Ainda que alargado de fulgor e determinação, estende-se em um calafrio instantaneamente dissipado pelo fervor alaranjado escoado em meio ao gutural ruído que a coruja afaga-lhe. Ambos giram a maçaneta da porta. Armando sai, Aurélio entra; Rastro faísca-se.









escancarada >>>>>>>>>>>>>>>>>>



Pode ser que ele tenha se enganado, mas em algum canto ele sabe que viu uma rigidez tremelicosa desfazendo-se dos pés à cabeça. Mancha esverdeada na lateral direita do abdome desfazendo-se vagarosa pelo resto do entorno. Uma espécie de sombra fincada numa noite surpreendentemente lacrada de escuridão. A Lua clandestina do lado de fora. Veias acidentando-se pelas cochas, pernas, seios, braços. Quase que impraticável reconhecer Consuelo com a língua estufada para fora expulsando os cabelos. Ainda que a boca continuasse escancarada num mesmo grito de esforço impermeável, desta vez sua vibração empedrada encontrava-se despida de toda postura que ainda por ventura pudesse ter requerido humanidade. Há uma deselegância nauseante em sua nudez escurecida, retorcida; inchada de um aroma cortante que revira o estômago. Desvia o olhar em pontadas. Aurélio vê letras boiadas pelo espelho tatuando-se pelo cadáver ao fundo.


No pescoço grosso ainda são visíveis as marcas afundadas pelos dedos. Aurélio escancara a janela; a Lua não entra de tão arrastada para trás de uma carapaça de nuvens – escorregando vagarosa. O estrondo do atrito escorregadio no metal enferrujado espanta para fora do quarto os dois ratos que, ao acender a luz, afugentaram-se pelos lençóis para debaixo da cama. De costas para Consuelo ele quase acredita ouvi-la. Vira-se com a insistente certeza débil de que a encontraria viva. Fixa-se nos glóbulos oculares projetados para fora. Senta-se de frente para o corpo, apertando o pano-de-prato sobre nariz e boca. Em silêncio permanece por um tempo que parece dilatar os instantes entre cada segundo; neste tempo ouve a própria respiração e subitamente conscientiza-se do esforço que já não mais emprega na conservação da mesma. Atenta-se minucioso à quentura do corpo sendo sorvida ao ambiente, estralo após estralo. Vísceras infectando decomposição aos demais órgãos; líquido pastoso deslocando-se quase sem brilho pela ferida aberta, logo abaixo do umbigo, um pouco para a direita.


Chega perto apertando o pano no rosto. Borbulhos assungando-se ao ápice da superfície da pele. Aurélio afrouxa o nó no cinto de roupão-de-banho que segura as mãos acima da cabeça. Ainda que soltos, os braços permanecem esticados numa rigidez esponjosa. Emaranhado de vento fresco não resiste à imponência que espanta ar respirável. O rosto distorcendo-se numa monstruosa careta enquanto a secura espreita-se inevitável. A coruja abandona seu característico tom e bate asas. Vai até o banheiro, fecha a porta e coloca a cabeça debaixo da água gelada. Na maçaneta o suor perturba um brilho pelo espelho. Lembra-se do rosto e do filme que tentara recordar no caminho. Reconhece-se como se coisas insistentemente se acumulassem pelo de-dentro de si; visualiza sensação encarnando vigor em cada pitada de músculo facial, distribuindo-se atento. Caso contrário ele pode sem cerimônia alguma despedaçar-se pelo chão em soluços trágicos. Cada partícula de sangue filtrando-se contínuo, transformando-se, reabsorvendo-se de impulso pelos tortuosos túbulos incrustados no mais fundo íntimo dos rins. Seu rosto. Nunca havia tido o impulso de olhar-se assim. Recolhendo os pedaços, amarrando estes pedaços pelas bordas até que o rosto vai se encontrando inteiro. Já são quase quarenta anos, esquadrinhando-se rigidez, túneis, pequenas fendas sinuosas; vastos minutos, não, não, são mais como que um único vasto minuto que se estica. E se contrai, remodelando uma fuga escapatória em espiral atiçando permanência da fissura por onde a imagem se atesta, olhando-se. Um enfrente ao outro. Sem propriedade de atravessar o espelho o minuto acaba sempre remodelando a sua partida. Uma voz avança do vulto no espelho. A casa está aparentemente estática; na cozinha não há sequer resquícios de comida. Há cheiro de germes famintos saciando-se uns pelos outros, derramando-se por todos os cômodos. Abre a geladeira. Há um olho, sim; há um cheiro, o cheiro de Rastro. Uma cor riscada denunciando a aproximação dessa exigência e seu olho, somente um olho representado por uma pontada de retina em fiapos. Germinando-se veloz. Um hálito, quase como que se tivesse tão perto de Aurélio quanto sua própria sombra olhando-o, anunciando-se esquálido numa espécie de rasura; uma mancha de carne, um acúmulo relapso de ciscos esquadrinhando saltos do que só pode ser o coração, linhas de sangue, aqui e ali pressentindo com estrondosa eloqüência o acabamento de um corpo que alcança-se cada vez mais um pouco mais e mais reconhecível. Não ainda palpável por enquanto somente visível. Sem rosto. Sem postura decifrável? Bebe água no bico da garrafa de plástico. Acelga, tomates, cebola, cenoura, leite, um pedaço de queijo; frescos.

Cacos de vidro arranhando-se pelo assoalho. Aurélio retorna ao quarto junto com a poeira que sai pela janela. Consuelo é um enorme escarro gigante lentamente espumando-se pegajoso. Enfia os braços debaixo do lençol, erguendo o corpo. De uma dobra escura do corredor ratos observam os cotovelos de Consuelo com um ranger afiado de dentes enraivecidos. Meio de lado atravessam-se pelo corredor, entortando os pés para dentro. Estaca-se breve, escorando-a na parede. Retoma fôlego e firmeza enquanto já caminha. Na sala a poça d’água do vaso partido mistura-se à sujeira da sola do sapato de Aurélio. Sai pela porta da frente com Consuelo nos braços. As mãos de dedos gordos sacodem-se ao léu, quase separadas do antebraço por sulcos fundos no pulso. A noite estacionara-se em febre depois da chuva. O cheiro pútrido corrói. Os dois vultos precipitam-se para dentro da sombra mergulhada entre as árvores. O vento grafa em ondas inusitadas o lençol azul claríssimo, sustentando-lhes disponibilidade um no outro. Um encaixe pelo trajeto. A coruja pousada no monte de terra mais alto bem ao lado da vala, ao longe, em aguardo; os olhos alaranjados são faróis indicando cais. A Lua, por onde anda a Lua?; murmura Aurélio colocando o corpo na grama. Ajoelhado. Tira a camisa e limpa o suor do rosto. Recosta-se na árvore. Ofegante. Por um descuido visual sua mão afunda-se pela cavidade escura que ele acredita ser o tronco da árvore. Seu coração acelera. O vento curvando-se ríspido entre as árvores atenua ao mesmo tempo em que despista o cheiro pútrido. Aurélio pula para dentro da vala, puxa o corpo pelas axilas, apóia-lhe as costas em seu joelho enquanto deita-lhe com o cuidado dos que não querem perturbar um sono. Curva-se ajeitando-lhe os cabelos ruivos. De dentro da cavidade na árvore amacia-se folhas, pequenos insetos, gravetos; Rastro é uma girândola rumando-se ainda mais e mais a todos os possíveis fundos do escuro dentro da árvore. De onde duas raízes suculentas saltam. Pelo topo das árvores galhos atritam-se intranqüilos. O cheiro de húmus é tão forte quanto o cheiro nauseante do cadáver. Lá no fundo do tronco fibrila um gemido arcaico incomodando-se vivo; debate-se até pelas bordas conforme o arrepio que arqueia-se palpável pela espinha, delineando espiralados sulcos pela parte inferior das pontas dos dedos. Fiapos de carne empurram-se com tamanho desejo que suas extremidades emendam-se rasgos de tecidos e músculos.


Aurélio ouve uma espécie de som que nem sequer chega a imaginar movimento algum em torno de si. Uma espécie de ruído que ainda não atritou-se em ruído, e que não é também a ansiedade perante a certeza de um ruído que está prestes a acontecer. É ruído; provavelmente uma longa calda de ar atravessando laringe enquanto o grande naco de Rastro desentope-se vivo. Um ruído que ainda não ocorreu há poucos instantes atrás. Uma incômoda ansiedade repentinamente revela-lhe os arquivos do que lhe articula Rastro; uma miragem enevoada avisando-lhe do estrondo adiado, adiado, adiado, adiado, adiado, adiado. Um gosto vagaroso interrompe-lhe as narinas; abre a boca num esgar esbaforido que quase rompe as terminações nervosas ramificadas pelo teto da cavidade nasal. Sai da fundura com a certeza de não perder a noção do cheiro que Consuelo atesta. Garganta pegajosa e quente. De onde Aurélio está, olhando para baixo, não se vê praticamente nada, a não ser a certeza de um buraco esquadrinhar-se ali meramente por ter sido ele que o cavoucou. Um buraco que por pressagio desata-se da imensa escuridão que a noite provoca pelo ambiente.

Faz o percurso de volta para o quarto com o lençol nas mãos. Tudo o que é corpo quase esmaga os nós moles acima dos pés. O espelho da sala intacto. De uma borda a outra, enquanto caminha, morre e vive. Adentra-se pela casa aos tropeços. Dentro do lençol coloca o animal morto, de um arrepio intumescido de brancura. Retorna à cova. O escuro engole o gato. Não jogado no escuro. Aurélio deita na borda, esticando-se até a altura do ventre de Consuelo, depositando-o. De pazada em pazada o buraco vai sendo entupido de terra. Terra respingada pelo corpo de Aurélio. Os braços aprendendo a força que descreve a duração de um uivo, tão longo quanto um uivo que acabou de nascer. Na cavidade do tronco fiapos de textura humana desejam olhos abertos.







ruído >>>>>>>>>>>>>>>>>>>



Pelas retinas escorregam-se um dentro do outro. Invernos esparramam-se por eles, folhas caem, navios atravessam Oceanos, vem cheiro de flores e depois de folhas secas. O outro lado do Oceano em ambos olhos está bem do outro lado de um passo. O cachorro esbugalhado pela corrente. Esmigalhando um ruído choroso. Com a ponta dos dedos, ambos, como que se tocassem-se, tomando o cuidado de não se espantarem à enorme vala fissurada em torno, enfrentam-se – quase entregues a um temor despedaçante, acelerando-os os gestos. Desacelerando-os os gestos. O silêncio que os atrai apaga o ambiente. Ainda que atentos. Atentos à quentura que os dias têm lhes arrepiado; cutucando-lhes um desnudamento de arder os olhos. Tão desejosos da flexibilidade um do outro. Maleabilidade que acentua-se à medida que a distância do passo que os separa torna-se progressivamente nula. Afagam-se de um fundo macio. Desnudam-se ao vento quase frio. Com a calma dos que arriscam-se à possível inexistência do solo debaixo dos pés. A luz do poste da rua esmaga a goiabeira sobre seus corpos. Salivam-se, salivam-se, salivam-se. Com você eu perco o meu pavor de ser um idiota. Eu também, eu não tropeço. Armando abre os braços. Paulo segura o pênis de Armando; carne latejante pousada nas mãos. Quente e úmido. Marchetando na língua o desejo por cada ondulação demarcando-lhe o esponjoso que é. Puxa-lhe o cume, vindo-se inteiro abrindo-lhe as bordas. Olhando pela janela eu abandonava a vontade de ar. E eu sentia o cheiro da terra molhada, ali, iscado pela força que invade pela espiral com capa roçando-me a face. Tenho medo. Tenho medo. Sinto como se fosse me transbordar em húmus. E eu seria capaz de aniquilar minhas bactérias, mumificando-me. Na avidez escorregam-se pés nus. Apertam-se sucessivamente, esparramando-se um em torno do de-dentro do outro. O ambiente sendo enraizado pela umidade que ambos olhos decifram frescor. Constatam-se um no outro. Um após o outro. Pênis de Paulo pousado na língua de Armando. Acho que não sei mais como me descascar de você. Eu sei que eu não sei. Ao menos por enquanto; pensam ambos, olhando-se como se soubessem exatamente o quase dito. Agora. É isso: por enquanto agora. Em cada viço eis desejo calmo e olhos cavoucando pedaços inusitados dentro de pedaços dentro de pedaços aflorando-se com sangue bem quase à própria superfície.


Retorceram-se com atrevimento, revelando-se cada vez mais um ao outro. Quando parece que vão se consumar a asfixia espetando-lhes os olhos de um no outro, ambos redescobrem-se pelo inusitado. Paulo desvencilha Armando de si, puxando-lhe em seguida de um modo que parecia não conhecer – ainda. Vê-lo de um outro ângulo. Armando é fruta salivando Paulo. Com a ponta do nariz desprega-lhe as nádegas, sente o cheiro quente. Morde-lhe nacos. Com os dentes puxa levemente os ralos pêlos das nádegas, em uma quase imperceptível fisgada de violência. Desprega o orifício quente com a língua. Armando está quieto e ofegante; com olhos de paciência serena permite-se ao arrebatamento dos escuros nas umidades que Paulo empurra. Surpreende-se com tamanho vigor na palma de tua pele alçando Armando para sua rigidez, sem que ele se vasculhe uma recusa desconectando-lhes o calor derramando-se de um ao outro de um ao outro. Tocam calor numa velocidade frenética capaz de ser minuciosa.


Um olho quieto na dobra partida da cortina.


Resvalam-se nem devagar nem apressado. Nomenclaturas perdem o sentido. Paulo descobre que seus braços atingem mais adiante, sem as constantes dobras das juntas afirmando-lhe gestos curtos. Encapsula Armando anunciando-se rumos ao seu fundo. Espalma-lhe a garganta quente, mordiscando-lhe o lóbulo suado da orelha. Escorregam-se um no outro. Pêlos dependurados pelos cílios. Armando é o êxtase da fruta deliciando-se em ser-se degustada, mastigada com tamanha quase delicadeza que quase não é sangue, ainda que deseje-se vermelho. Derramamento para dentro vertendo acolhimento. Não uma entrega como que hipnotizados, como que esquecidos de si. Há um pêndulo agitando-os cardíacos. Cachorro quieto, dormindo ao pé da goiabeira. Não parece ser dia de Lua; a única brancura é o pedaço de globo ocular oscilando pela fissura da cortina. Brancura imperceptível, invadida pelo quase negrume do ambiente. Está visível às sensações dos dois que a insistência de Rastro adquiriu-se de um modo distinto de estar. Um modo menos selvagem; no entanto, ainda assim, à espreita. Apertam-se enfiando dedos entre cabelos. Em torno deles uma camada de calor exige uma identificação que lhes multiplique calor. Abre os braços, entorta-os, solto pelo equilíbrio que Paulo delineia. Desfiam-se sopros de prazer. Prazer que Armando nunca soubera permitir-se. Sabem nesse instante que o prazer desafia ápices a cada desapego, a cada instante em que o medo descobre-se tão desnecessário como infalível com sua instigante presença inevitável.


Os olhos úmidos desvencilham-se da fresta na cortina; desnorteados, avisando o que parecia esquecido. O clarão começou a arranhar-lhe os olhos. Afastam-se tão lentamente para a cama sedenta por sonhos que por pouco ela morre ali quase. Cerra pálpebras, seu coração saltando acima do nível da pele. Esmagada pelo desejo que os dois atritam. Olívia vai sendo carcomida pelo sono, envolvendo-se em imagens que seu corpo como que se se apagasse. Acorda de madrugada toda molhada, engolindo ar, apressada, arregalada com a veracidade do pesadelo ainda sacudindo-lhe passos adormecidos. Somente sensação e gosto. Não há instantes pra serem lembrados, apenas sensação e gosto. Gosto exigindo corpos e ambientes que permanecem escapulindo-se. A náusea corta-lhe num súbito ardente. Cambaleia-se em passos. Ao lado da porta, ainda segurando a maçaneta, vomita fezes. Joga toalha no chão. Caminha pela casa sem a presença de Paulo. Ao atravessar a sala em direção ao banheiro um baque lhe sacode. O cachorro em silêncio embaixo do pé de goiaba. Pelo chão do banheiro molhado quase cai. Molha o rosto sem olhar-se no espelho. Atravessa portas apoiando-se pelas paredes. A luz da cozinha sobressalta a barata lacrada no fundo do copo debaixo da torneira do filtro d'água de barro. Sacode-se enlouquecida, escorregando suas pernas quebradiças antes de grudar seu olho na membrana de vidro, no aguardo de algum derramamento de Olívia, chegando, chegando. Caminha apertando os lábios. Segura o copo quase colando a retina sobre o brilho escurecido da barata. Quieta. Olívia vomita dentro do copo. De súbito um relâmpago seco estrala sem chuva sem vento; ruído áspero e pesado, abrindo-lhe a mão. O copo de fezes com barata espatifa-se com o clarão. Cambaleia-se dali com seus passos curtos. Respingos denunciam-lhe até mesmo debaixo do cobertor. A esquisita sensação de que um inseto alojou-se na dobra quase à beira de sua vagina incomoda-lhe, debate-lhe contra o despertar que o aconchego descarrilhado pelo carinho estampado debaixo das goiabas, desativando barreiras ininterruptas, provocou-lhe respiração funda. Os dois escorregando-se um no outro ainda grudados em sua pálpebra. Não há como negar que o medo desafiado entre ambos é presente. Olívia não sabia da existência. Engole o cheiro de merda. Levanta-se não com a mesma dificuldade. Tira a roupa. Atrás do vaso sanitário uma embalagem de camisinha. Amontoa os lençóis num canto. Liga o chuveiro. Água contorna-a impotente.


Paulo nem percebe quando a camisinha cai do bolso da camisa. Vestem-se levemente atordoados, delirantes de lentidão. Amolecidos pela vastidão. Armando coloca na mochila o livro ‘Kafka – Viagem às profundezas de uma alma’. Saem calmos, em silêncio. Já passava das duas da manhã quando decidiram pela danceteria da Rua Sete. É que ali, ao contrário de todas as outras, é possível dançar música lenta. No ônibus lêem-se parágrafos sublinhados. Respirações desreguladas, com enormes distâncias quase desabitadas de ar. De mãos dadas na fila da entrada da boate as pessoas parecem irreais. Depois de um drink, acomodados um no vão do outro, trocando passos pelo salão, não têm certeza se Rastro ainda é uma presença inevitável, a qualquer momento, ou se a pontada de angustia é um truque da memória. Armando lambe a curva da nuca de Paulo. Beijam-se respirando-se um pelo outro. Uma menina branca como leite e de cabelo laranja abraça-lhes juntos, beijando-lhes as faces. Vocês dois desapareceram, nem respondem mais ao celular. Afasta-se um pouco, olhando-os com curiosidade; que amor, meu Deus. Dá até inveja. Como é que vocês conseguem depois de tanto tempo juntos? Ambos sem saber o que dizer estampam um sorriso quase malicioso, caído pelo lado, redefinido em algo prestes ao inusitado ao articular-se à sobrancelha arqueada. De súbito música e iluminação compactuam-se em saltos eletrônicos. Uma fina película de raios laser logo acima do aglomerado de cabeças. Camila, sacudindo sua cabeleira de fogo, estica o braço até os raios. Tinha certeza que os encontraria aqui; berra. Armando e Paulo alquebram as juntas do corpo pelas lacunas e pontadas da música, desfiando-se em articulações que lembram movimentos de fuga. Correm-se em pulos. Saltam como faíscas estacadas, rebentando-se pelo mesmo lugar.


Úmidos de suor. Quentes escorregam-se por entre os pulos até o bar. Armando dá-lhe um beijo e aponta o banheiro. Esforça-se em não tropeçar nos riscos explodidos de luz em meio à penumbra, contornando-se pelos cantos adiante. Sua respiração quase desata-se ofegante, agora, já distante do olhar de Paulo. Enfia a mão no bolso e toca com a ponta dos dedos os comprimidos. Quase sorri, ainda que permaneça um fôlego parado no ápice do instante de uma satisfação. Ninguém nunca desconfiou, nem mesmo Paulo. Pode ser que sua mãe tenha percebido, não importa; em verdade de súbito ela sempre esquece. Quando os olhos arregalados e à beira de Helena tornaram-se inevitáveis o médico iniciou uma dieta de comprimidos; nos primeiros dias, esses, de medicação, Armando exacerbava-se, tal e qual ela própria em período de transição sacudia-se quase desconexa pelos cômodos, esforçando-se em rabos de olho para que o frenesi não lhe expandisse indiscriminadamente geradora de expressões faciais aterradas numa surpresa comprimindo e entortando a face. Já se vão alguns anos desde a sua primeira consulta e desde então Armando vem tomando os mesmo comprimidos. Ele, que nunca havia cogitado mexer no dinheiro que a mãe guarda na gaveta, dentro da caixa vazia com elástico em volta, começa a usar esse dinheiro para comprar os comprimidos que começaram a faltar. Muitas vezes observa-a escondido, querendo combinar as reações em ambos corpos; tentando dar-lhe dicas quando ele próprio acredita-se superando-se. Superando-se?; quase tropeça num amontoado de papel higiênico enquanto embola a palavra pelo de dentro de si. Contorna pessoas pelo corredor de entrada do banheiro esbarrando-se adentro, espalmando baques ruidosos pelas portas lacradas dos cubículos. A última porta escancara-se em estralo pela parede. Pernas e braços e mãos e dedos vacilantes. O distinto ruído do comprimido rompendo metálica película resguardando-lhe à espera causa-lhe leve arrepio de prazer. Acumulando-se de arrepio enquanto o comprimido dissolve-se garganta adentro. Senta na tampa do vaso e aguarda. Pouco a pouco os baques da música pulsam-se cada vez mais e mais de uma cor tão demasiada nítida que olhar torna-se imprescindível, de um envolvimento que seu corpo corresponde imediatamente, exigindo uma resposta à altura da ousadia proposta. Sua cabeça pendendo do pescoço estica o arco das costas em uma descontraída reta. Abre a porta sem se lembrar da exaustão que tantas vezes consumiu-lhe em fundas olheiras, já olhando-se no espelho com a precisão do olhar que consome não somente a si mesmo como também o entorno, ainda que estacado nos olhos, pelos olhos. É que olhos desejosos de olhar atam-se numa intersecção que vai adquirindo peso, esparramando-se indiscriminada. Seus ombros, desta vez, articulam-se mais que sua cintura. Então teus lábios não repuxam; estendidos em combinação aos pedaços igualmente esquecidos pela face instintivamente lívida. Tranqüila? E esse corte de ranhuras quando olhos parecem exigir-lhe posição e velocidade! Com Paulo seu corpo não trava. Com ele ele nunca sabe, nem precisa saber quem dos dois, agora, vai penetrar - o inusitado não estanca-lhe as juntas? Ali; ali, olhando-se por inteiro no espelho, em meio a outros corpos, sendo cutucado pelos desejos, ele não consegue lembrar a imagem de teu corpo nu, nem sequer a sensação do peso de teu pênis inchado de fiapos salientes. Anzóis. Recupera-se quando pensa em Paulo. Esbarra-se dali com alegria. Pensando nele. Em um frenesi imperceptível. Ou quase? Se Paulo o visse acabaria por identificar o desvio? Avista Paulo de boca numa long neck com olhos alegres por sobre ele. No telão acima das cabeças e braços sacudidos vê-se um céu com estrias alaranjadas quase atadas a efêmeros relâmpagos de claridade fossilizando humanos retorcidos - fossilização que adquire coerência no acúmulo dos relâmpagos. Caminhando em sua direção, rumo ao olhar de Paulo, percebe que o domínio esta noite estará em suas mãos. Seu calcanhar curva-se para dentro, seu pênis desprega-se para dentro, o olhar precipita-se ao chão instintivamente demarcando em curvas e retas os pés em movimento. Sente o cheiro de Paulo e apóia os cotovelos no balcão retirando o suor da testa com as palmas das mãos. Armando tentou, e como tentou meu Deus, e como mergulhou-se inteiro para dentro de si mesmo na intenção de calar a fissura de tremores em sua mão quando Paulo estendeu-lhe a long neck. O corte foi ainda mais fundo quando não teve coragem de registrar a face de Paulo, só para ter certeza ou não de que ele percebeu. Em um só gole bebe metade da cerveja. Olham-se com força.


Entrega a garrafa em suas mãos e se afasta. O escuro do ambiente torna-se ainda mais escuro. Não apenas uma ou duas cortinas - desvia-se em meio a três cortinas negras. Não se sabe a distância em que o escuro acaba-se, ainda que haja lapsos de claridade. É nessas fendas que Armando avista um nariz e lábios suculentos. Tropeça-se na direção do que ali tem a possibilidade de estar. Os saltos da música inchando-lhe o corpo. Lapso ínfimo rasga contaminação ao negrume. Beijam-se. Revelam-se pelas rachaduras de luz no escuro. Desenham-se pela palma das mãos, dedos, língua, joelho, pêlos. Esfregam-se as faces. Beijam-se. Em descompasso macio abrem o ziper um do outro. Lambem-se os lábios, cutucam-se ao mais fundo que língua atinge. Com as duas mãos separa as lisas nádegas de Armando, deslizando dedos pela fenda quente. Apertam-se. Marcam-se. Afundam-se. Suga-lhe mamilos. Alarga-lhe o umbigo. Abocanha os grandes bagos. Desliza as mãos pelos lisos pêlos nas nádegas duras. Quase sorri com o tamanho do pinto que entra inteiro até um grande fundo da garganta sem que seja destituido de ar, entrando e saindo. Aperta-lhe o crânio enquanto o saco gruda-se e desgruda-se pelo queixo. Pelo cabelo alça-lhe até os lábios. Armando é que alimenta o beijo, desatando o outro à curiosidade e ao prazer do que desenrola-se - surpreso até. Vira-lhe lambendo-lhe o pescoço, as costas e sua curva, o quente apertado. Encharca-lhe o quente em cintilância escorregadia e ranhuras leves; língua desprega. Geme com a cara repousada no fim do escuro. Armando treme, fincado nessa vontade do outro em apertá-lo enquanto o duro é enraizamento-esticando-se desse afeto. Espalma-se no suado escuro. Parede. Não se preocupa em esparramar. Seu gemido é um grito fragmentado em pedaços demasiados vivos, independentes e atados entre si com a potência necessária ao mecanismo que permanece à curiosidade, ao linear que conecta em ondas retas e solavancos - qual o olho chama-se ao olhar. Armando empurra-se ao arrepio em colar-se ao despregamento de tua pele pelo saco dependurado. Sacudindo-se em tacs e tics que a respiração queda. Enroscam-se fundo enquanto provoca-se brechas por onde os lapsos podem por ventura iluminar. Em torno dos corpos lustrando-se em salivas suor gemidos acumula-se seres humanos estendidos pelo campo gravitacional que o desejo de ambos demarca.











pingos >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>



Aurélio quase tropeça no degrau; cambaleia-se rumo à porta entreaberta acumulando-se de uma sensação de escorregar-se para fora da casa, ao invés de para dentro, entrevendo o de-dentro enquanto avança-se pela porta. Já no segundo passo não está de pé. Está deitado, repuxando os ombros, tremelicando as pontas dos dedos, clareando-se ausente de lembranças e ainda assim com a impressão de uma aparição insistentemente presente; com a sensação de que infinitos sonhos quanto possíveis percorreram-lhe até aquele instante, mas sem que uma única imagem provocasse impressão perceptível. A mão e a voz feminina atrai-lhe vívido ao ambiente. Sua mãe. Não; murmura repentino, Aurélio, como que corrigindo o que acabara de decodificar, diante teus olhos. O ‘não’ de Aurélio é um sopro agitado em um canto ilhado dentro dele mesmo, uma ausência de som que quase faísca-se sonora; um mundo ínfimo em seu de-dentro por onde é-lhe capaz de vislumbrar-se a sentimentos que afirmam-se seus ainda que de algum modo não o sejam. Dali ele avista-se como se tivesse a nítida certeza inquestionável de que jamais cometera um crime, mas que se alguém o dissesse que sim, que o cometera, ele se arriscaria na possibilidade inquestionável de o ter cometido. Seus olhos estatelados num emaranhado de curvas que afasta com a dificuldade de unhas escavadas pelas bordas e superfícies dos olhos, encarando a mãe como se ainda não tivesse se recuperado do torpor do sono. Soergue-se na cama afundando estalos no colchão. O cabelo da mulher em desalinho; em seus olhos um misto de furor e exatidão corpórea atestada pelo modo como ela esgueira-se até a janela. O menino estende-se na ponta dos pés; desvia-se para o lado e alcança tochas e gritos de homens e cachorros.


Hoje de manhã foi gostoso sentir a mão suada da mulher. Senti um susto que guardei comigo; não da quentura na mão dela, não. É que um homem nos visitou, chamou-nos para o encontro no vilarejo e deu-nos um modo diferente de ficar parado, avolumados em torno das chamas - enquanto a barra de sua capa negra, arrastando-se para longe, encrespa-se de folhas secas e terra. Aurélio arrebenta as pálpebras com dificuldade e antes mesmo de pensar em dar um passo rumo ao vazio que afunda-se diante dele, desencurvando-se pela maior parte do casulo que é-lhe, erupções do Rastro espremem-lhe contra a dobra da parede escura que aguarda ser transvasada. Antes que a asfixia lhe engula enfia a ponta dos dedos no nada e tudo ao redor adquire uma estatura gigantesca. Maravilha-se repentino: ele já havia esquecido a sensação de ver o mundo da altura de um menino de nove anos, segurando a mão da mulher. Muito barro sendo pisado pelas pessoas que também haviam sido convocadas àquele dia. Ouvimos os grunhidos medonhos e de um retorcido desprezível. Carnes vivas estraladas. Saímos para comprar o que? Sei que todo mundo um instante ou outro, antes ou depois de continuar seus afazeres, estaca-se ali para olhar. O menino preferiu ficar em silêncio, acompanhando o silêncio da mulher apertando-lhe a mão. Por um instante eu me esqueci das chamas; uma menina enlaçada pelas pernas do pai estacou-me a visão, respingando o barro num pequeno salto veloz de pés alternados. Eu também segui-me dobrando os joelhos, ofegante de uma alegria que a menina e eu, em retinas atadas, modelávamos. Mamãe puxou-me repentinamente por entre aquele amontoado de pernas. O ar quente e o cheiro de comida tão mais de perto. A multidão agora estava atrás de nós e do outro lado dos três corpos em chamas, de pé. Os corpos sacodem-se atados nos paus fincados. Eu repuxo o braço. O menino corre quando brinca com algo que acaba lhe machucando; ele faz careta, geme para dentro num quase grito, para não chamar atenção de seu pai ou de sua mãe. Incha os músculos do corpo e sai correndo em meio aos troncos, até que um deles lhe convida a subir até grandes alturas, pelos galhos. Certa vez acertou uma pedra no dedo; rasgou o dedo até ver o osso nitidamente na cortante claridade. Enfiou a unha para vez mais do raspão do osso. Saiu correndo muito mais rápido que aquela água despedaçada que despenca lá do alto, esgueirando-se pela árvore sem querer parar de embrenhar-se pelo aconchego das folhas. Talhado de ardume quando já não havia mais galhos. Estava tão alto que preferiu não olhar para os riscos na pele.


Antes de sacudir a cabeça para todos os lados, à procura da menina de pés sujos de barro, o menino teve uma rápida visão do homem de máscara jogando enxofre nas chamas. Afastamos-nos daquele odor de vísceras fritas sem que eu tivesse coragem de olhar na cara da mulher. Meus ombros e pescoço endurecidos; de algum modo é como se mamãe me olhasse, lá de cima. Senti o couro cabeludo arder. Aurélio recolhe-se como se a qualquer instante um menino igual a ele, cuspido e escarrado, surgisse de alguma dobra com um rosto desfigurado, olhando-o ou não nos olhos. Caminharam-se disfarçando os tropeços, com uma voz engolida. Compraram melado e batatas; a mulher olhando cada uma das batatas com uma atenção saltada que pesava-lhe o rosto para baixo. Os olhos sutilmente afundavam-se pelos cantos, absorvendo cada naco de luminosidade. No caminho de volta, pelo caminho que os dois sempre preferem seguir, avistam, pousada numa folha, bem à altura em meio aos dois, a borboleta que viram quando seguiam para o vilarejo; não no mesmo local, mas sabiam que era a mesma borboleta. Com suas asas amarelo fogo e raios alaranjados. Sorriram ligeiramente enervados, buscando acreditar que um teor naquele bosque conspirava a favor dos dois.


Mulher vem a mim. Eu desvio-me dela; quero ver algumas daquelas faces tremuladas pelas tochas. Reconheço papai. Eu não quero morrer pelas mãos destes malditos; me diz arrastando-me os olhos aos olhos dela. Seus olhos. Seus olhos fisgando-me com urgência; ordenando-me um pedaço pesado de ar que desce pelos pulmões. O cabo da lâmina em curva roçando-me o avesso da mão. Eu quero você, eu quero você, eu quero. Você. Estaco-me revestido de pedra, erguendo o machado acima da minha cabeça com uma força que Aurélio conhecia. Tocando-a com os olhos o menino esparrama-se pelo vermelho quente do contorno de teus lábios. O coração empurrando o cérebro, desfazendo-se em fuga pelos orifícios da medula. Vejo que papai me olha com um quase sorriso piscando-me um dos olhos. As pernas tremem. Saltita no colchão afundando terra molhada. Não vejo mamãe; na minha frente a menina que amassava a terra molhada pela noite de ventanias. Invenção de Aurélio? Invenção minha? Invenção de quem? De quem? Do lado de fora da cabana, na cavidade da árvore, Rastro enverga-se. Vermelhões de carne protuberam-se em torno de lascas de ossos; unhas expulsam-se timidamente, emerge-se o que se assemelha a um braço. Pelas bordas internas da cavidade roçam os nacos de carnes. Ambas dobras da boca, uma em direção à outra, contaminam-se de lábios. Com a digital dos dedos acaricia a superfície dos glóbulos oculares que palpitam-se acastanhados. Um fiapo de sola do pé avoluma-se. Cada pedaço de órgão fundem-se uns nos outros.


Aurélio afunda um grito. Deixo cair o machado aos pés de mamãe, estatelada, com uns olhos de peixe quieto, encharcada de um tremor que conduz sangue à face do corpo. Papai entra pela porta e acerta-lhe um soco na orelha. A mulher cai uivando em câmera lenta; cada quadro é uma solução matemática única pulsante empenando-se ao chão. Vejo-a cair, iluminada pelas chamas que rebolam acima de nossas cabeças. Antes mesmo de baquear-se ao chão os pés afundam-lhe a carne. Meu pai me abraça num grito de vitória e me levanta na altura das tochas. Agora vejo que também há algumas poucas mulheres segurando o fogo, uivando palavras de incentivo aos homens. Uma delas está ao lado da cama, amassando o bico dos peitos de mamãe com a sola do sapato. Toda amolecida enquanto o amontoado de gente ordena grunhidos altos competindo com os latidos. Os cachorros, segurados a uma distância calculada, mastigam-lhe os dedos dos pés. O homem diz que estará de volta... em breve. E sai arrastando a mulher pelo cabelo. Grunhindo flácida. Mas com a firmeza daquele pedaço duro que insiste em contaminar o resto do que ela é.


Aurélio convulsa-se na busca de ar, vacilante, reconhecendo o corredor escurecido, bem adiante, com a luz do quarto ainda acesa. Rodopia-se em direção da porta. Gira a maçaneta e atravessa o alpendre como se retornasse à superfície. Desce as escadas sacudindo os braços acima da cabeça, com a boca e as narinas arreganhadas, tragando o oxigênio da manhã que derrama-se fresco e amarelado, azulando-se a cada ínfimo espaço de tempo percorrido. O vento esparrama terra. Aurélio escorrega-se suspenso, para frente. Enfia os dedos na grama orvalhada. A garganta embaraçada. Vomita em cima das próprias mãos. Escapole-se enérgico rumo o carro. Acende um cigarro enquanto gira a ignição. Avança-se dali cuspindo fumaça.







resquício >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>



A minha vontade sempre foi não responder às suas perguntas. Às chantagens devastando-me repugnância. Te confesso que quando eu a matei, por um longo instante eu estive bem consciente do que fiz e a paz que senti foi o melhor sentimento que já tive. Depois veio uma náusea que só desaparece quando essa paz retornava. Retornava? Muitas vezes já me perguntei se poderia ter atingido tamanha delícia de estar tendo-lhe dito nãos, ainda que sutilmente disfarçados de sims. Pode ser. Sei que a vontade vem de um tal modo ensurdecedor que só sei que não a quero depois que ejaculo. Não, não é bem só depois que ejaculo, pois fico assim em estado de graça decifrando cada partícula de calor do corpo esvaindo-se. Depois que esfria, ainda que o horror ainda esteja contorcido na face, com meus dedos afundados em teu pescoço, e meu pênis ainda duro dentro dela, ainda assim me dá nojo. Eu parto. Haroldo fica calado, olhando ponto cego. Mas era dela que falava; Helena recupera-se num tom abrupto. Ela. Minha mãe e eu não tínhamos irmãos. Pensei que depois de sua morte eu pegaria a estrada e começaria a vida em qualquer lugar. Não consegui sair dessa casa. Ainda assim vem-me lapsos por onde parece que tenho toda a certeza de um impulso para o que lá fora deseja-me vívido. Quem sabe você seria a chave para que eu possa começar a esquecer toda a geometria caótica que aquece-me um resquício útil. Mão de Helena espalmada sobre a boca. Seus dedos com cheiro de vagina. Ainda assim quero ser capaz de sentir algo além desse pavor do selvagem em mim que retira-me a possibilidade de que o presságio jamais atinja-se ao menos miragem. Sim. É que agora sei que é uma possibilidade bem palpável que eu não possa ser mais que uma miragem. Não mais; e que esse evento real de agora, amanhã, esse veneno que destacou de mim, será miragem; uma miragem que é um tropeço no nada. Que permanece em mim, configurando-me. Ponto cego. Ando com essa vontade de querer decifrar os prazeres que o cotidiano distribui. Eu também posso parar com esse papo de merda e ser simplesmente o que meu desejo ainda não-descoberto desata? Também posso matá-la facilmente tão agora. Seu marido viria até mim. Quem sabe ele seria uma solução ainda outra? E porque é que eu não posso ser?; Helena murmura-se em palavras espalhadas pela mão que ainda empurra-lhe a boca. Aí depende de você. Helena inclina-se cambaleante. Lembre-se que eu não me esqueço, eu estou aqui e não tenho nada a perder. Tanto quanto você; diz Helena afastando as mãos da boca. Segura seu pênis estendido meio quase mole sobre a palma. Aproximam-se num beijo de corpos mansos. Helena em mãos ternas. Haroldo permiti-se ao toque buscando-se desviar do desejo que assanha-lhe suas mãos despregando-lhe sufoco; emergindo-se, nesse entrave voluntário, a um calor que barra-lhe o sangue esparramando-lhe o pênis em estaca alucinando-se desafio à morte. Helena beija-lhe a pele, os mamilos, língua dentro do umbigo, pelo saco caído junto com o pênis. Haroldo. Morto. Enfim ergue Helena fechando-lhe dentro dos braços; morde-lhe nuca. Arranhando-lhe dentes até a ponta do queixo. Aperta-lhe a garganta até quase tapar-lhe a passagem do ar. Retina em retina. Permite um resto de fiapo de ar, um algo que fica, um resvalo quase mínimo de sobrevivência. Quer-lhe atenta. Os olhos de Helena incham-se pra fora, sua língua expulsa-se entre os lábios. Haroldo mama a ponta de sua língua. Lábios se tocam. Empurra ar para dentro dela. Lambe face, pálpebras, ponta do nariz. Seu pinto vai ficando duro, forçando-lhe vão entre as pernas. Rijo e mais rijo a cada desespero de Helena, anunciando bem próximo o instante em que vai se sacudir como um animal cego, um corpo convulsando-se contra o empecilho que interrompe-lhe vivaz. De súbito Haroldo sente à flor da pele a delícia no quase. Antes que Helena escapula-lhe por entre os dedos ele afrouxa os dedos; e no instante em que ela começa a recuperar o fôlego aperta novamente os dedos. Suas nádegas no braço do sofá, a mão esquerda deslizando-se pelo encosto, a direita desregrando-se solta pelo vazio. Soca-lhe o pênis enquanto mastiga-lhe o cabelo. Esfregam-se as faces. Empurram-se rudes pela parede. Helena quer essa pulsação, recuperando-se fôlego todas as vezes em que a visão turva-se. Pedaços invisíveis dela ressurgindo com força, atiçando-lhe vontade de arriscar-se. Pondo a própria respiração em risco. De algum modo ela acredita que a possibilidade de recuperar-se é viável.


Ambos gemem trêmulos. Pressionando dedos nas carnes um do outro. Em vertigem ao chão, despregando-se à medida que escorregam-se. Ruidosos de respiração descompassada. Molhados. A ponta dos pés de Helena enfiada por baixo da cortina vermelho carne. Pulso de Haroldo preso entre a nuca de Helena e o chão. Retira fios de cabelo de entre os dentes. Puxa mão para si quando começa a formigar. Lua vaza pelas aberturas discretas, despertando ambiente, lentamente aos olhos de ambos. Olham-se em silêncio pelo teto, pelos móveis, ouvindo-se em descompasso, pelo calor um do outro, pelos cheiros. Helena pensando que qualquer dia desses quando não mais sentir-se tão desatinada, num belo dia saberá livrar-se dele; o envolvimento terá que ser discreto, sempre entre quatro paredes. Por algum motivo lembrou-se da história de Aurélio, dos rastros do absurdo. Soergue-se com destreza, despistando-se de expressão facial alarmante. Haroldo, apesar da dúvida afiando-lhe, tem certeza de que esta é a chance de superar-se pra um outro modo de ser-se, afugentando-se de vez a náusea que lhe consome depois de saciar o desejo em sentir o hálito se apagando, nos corpos de carne murcha. Só de carne mole?; pensa quase audível. É quando Helena fala; vamos tomar banho? Assente despregando, devagar, as nádegas avermelhadas; gotas de suor esticando-se entre a pele e o chão. Fio quase invisível arrebenta-se. Gotas acumulam-se, juntando-se umas nas outras pelo chão e pela pele. Um fiapo de vento forte entra pelas fendas. Cortina vermelho carne vibra-se quase imperceptível. Ambos de costas a caminho do banheiro. De costas para a penumbra da sala. De costas para o espelho. Ambos. Viram-se de súbito, esquecidos um do outro. Olham cada um a si próprio, desapercebidos por breves instantes da existência um do outro. De súbito olham-se no olho um do outro. Sexo de Haroldo incha. Lábio de Helena repuxa-se. Mão salta para pescoço de Helena. Arrastando-a. Quase enfiando-a pelas dobras dos azulejos. Olhos turvos acumulados de suor. Gestos quase moribundos. Quase. Denunciando-lhe uma espécie de prazer na dança contorcida de seu corpo. Acrescendo-lhe pouco a pouco o desfrute de uma inusitada autonomia. Segura-lhe um dos seios derramando-o por entre os dedos. Helena solta um pedaço escorregadio de coisa quase sem nexo sonoro, atiçando-lhe mão afundando-se pela curva mole de suas ancas. É quase que improvável o estilhaço que os ata. Ambos em ruína vigorosa. A claridade do banheiro recusando-se a tudo que não é tormenta. Mas ambos olham-se numa eternidade de linha esticada. Breve – ainda que. Absurdamente suave. Ambos não toleram. Antes mesmo; sim; mas antes mesmo que um desejo de vômito definitivo os estaque parado, esticam-se batidas cardíacas contaminando fenda que escoa probabilidades, possibilidades de tremor aproximando-se, fervilhando-os inevitáveis de saltos de vida. Sua nádega esquerda como que trava o escorregão, afundada pela cola que o azulejo liga. Helena geme de língua esticada pra fora, já caída. Umidade espreme-lhe escorregadia. A memória imediata entrega-os sensações, engole automaticamente vultos faiscados do atrito. Precipitam-se pela pulsação que os nervos cerebrais, estimulados, empurram. A solenidade que ali reage-se não pode ser detectada como absolutamente alheia, retida numa contemplação de espécie indiferente. Renunciam-se sob o signo do prazer. Ou ainda, geram-se sob o signo do prazer. Quanto mais se acolhem mais e mais o pacto empena-os sôfregos um pelo de-dentro do outro. Orbitam-se como que livres em articulações com juntas úmidas. Umidade virulenta – não há trégua entre um membro e outro, onde então os pedaços de órgãos, distintos, são-se envoltos e embrenhados por um perfume dissolvendo-lhes os joelhos, bordas, rótulas, pele.


Deslizam-se para dentro do box. Helena é pedaço de carne presa por um fiapo de ferro. Braços dependurados sacudindo-se; mãos espalmadas desgrudam-se estralos pelos azulejos. Ele a lambe, mordisca-lhe orelha e cílios, cutuca-lhe sexo pelo corpo, atrita-lhe unha nos seios, na barriga, enfiando-se pelos vãos, curvas. Ela não busca afastá-lo. Suas mãos continuam-se frenéticas pelos azulejos. Encontra o registro e destrava água do chuveiro. Desprega-se mormaço acostumado. Pés escorregam. Pulsam-se, um como andaime do outro. Uns. Antiestética celebrando pelo ultimato do prazer - estética. Que a vida acata.







rastro >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>



O corpo inacabado, em processo acelerado de equilíbrio, contempla o brilho das imagens que escorrem pelo lado de lá da membrana. Pensa passos. Faísca-se para fora da cavidade. Estremecido em meio a um embate travado em seu fundo; um pedaço de si à beira de ajoelhar na terra levemente molhada. Um tremor sacode-lhe o ínfimo, multiplicando-lhe quente a partir de cada naco de carne de si que recusa-se e enfrenta-se ao ambiente, envolvendo-se e entremeando-se... ele. Aperta os punhos com força enrijecendo cada músculo do corpo; estica o pescoço. Pisca os olhos até então alargados ininterruptamente. Os ínfimos tremelicosos combinam-se num grito embrulhando-se de um estridente calado muito antes de escapulir da boca. O corpo tremula em ondas; os tendões emergem em estalos. Cada pedaço da Natureza fibrila-se na direção de Rastro; e em oposição – fundindo-se um ao outro. O vento converge em rodopios de fiapos em torno de cada passo que caminha. Seu rastro não é apenas um vestígio que permanece pela passagem de si trajetando-se à casa de Consuelo - não. Suas pegadas afundam-se diante dele antes mesmo de indicá-las com o peso dos pés. Não, ainda não é isso; sua presença rastreia-se em toda e qualquer probabilidade de resvalo – ‘quase’, assovia o vento na curva dos galhos. Por pouco um enorme naco de umidade do ambiente não é uma torrente arrastada pela curva que seus olhos demarcam, atraindo outros acúmulos molhados dispersos pela proximidade da curva que adensa-se. O desejo no olhar que acresce-se isca-lhe o rumo dos passos. Os olhos da coruja retesam-se de uma tonalidade alaranjada tão demasiadamente única quanto cada movimento de folhas e galhos e insetos. Antes que o ambiente longínquo ou próximo possa processar o olhar anunciado pela presença carregada de prepotência, diriam alguns, ou de medo estonteante, diriam outros, toda e qualquer troca energética entre os objetos vivos permanece como que suspensa, à espera. A mecânica do vivo pendura-se, interrompe-se em uma espécie de pausa ainda que cada pulsação persista-se em contínuo segredo vivo.


Olha para as próprias mãos suadas, revestidas por uma gosma esbranquiçada repleta de capilares e manchas avermelhadas derramadas corpo afora. Rastro pára com os pés encima do vômito de Aurélio. Pisa a textura aveludada da relva, olha o azul arranhado pela brancura das nuvens, o cheiro mole crepitando dos troncos, do suor emergindo entre os fios de pelo dos animais, entre os fiapos duros das penas. Os ruídos permanecem ecos até o instante em que uma tiara de sopro solar desata-se da arriscada onipotência da presença. O próprio Rastro dá-se conta da inevitável reação de equilíbrio que dali impõem-se já de imediato presente. Enruga a face virando a cabeça ligeiramente para o lado desviando-se de um solavanco. Sacode-se desejando afastar a organização humana que esquadrinha-se existente a cada instante que olha o ambiente com mais acuidade. A Natureza aprende com súbita rapidez diante do inflexível modo de identificação do corpo que caminha; Rastro arqueando-se pulsante via precipitações inusitadas pressagiadas pelo pensamento, complexificando-os com impressionante velocidade e exatidão antes mesmo que as combinações sejam computadas pelo movimento Total. Grita uma segunda vez, afugentando o caos que se adensa dentro de si. Rastro sabota-se ininterrupto, recriando-se de um caos que de súbito ordena-se – e assim sucessivamente. Seu grito é de uma tal silenciosidade que seu corpo sacoleja-se em movimentos aparentemente mudos e nervosos. O corpo que incorpora-se dele, nele, segue-se em negligência ao sentido que lhe acentua percepção à Voz que se escuta intra-estendendo-lhe por todos os lados. Como uma luz fraca derramando-se insistentemente pelo escuro – um negrume vasto de luminosidade. O rosto retorcido de mulher cai em câmera-lenta ao sem fundo do de-dentro de Rastro. Ele desvencilha-se de si em uma veloz fisgada da imagem da mulher que por pouco estaria sendo pisada. Aconchega essa agitação em algum canto quase desapercebido.


Sobe os degraus. A porta se abre lentamente. Seu rastro é úmido. Uma firmeza de luz vibra rumo ao céu. Olha a fenda que se abre com curiosidade e excitação, parado por um breve momento. Avança-se. Diante do espelho observa parte de sua nudez molhada. Assanha-se ao cheiro de si com reservas, como se se resguardasse uma distância onde os chamados não se consumam em uma organização que sua natureza repele - desejando. A sala está escura e com cheiro parado. As cortinas e as janelas se abrem, acompanhando o deslizamento dos olhos. A geometria da desordem, diante de seu modo de ver, manifesta-se superabundante. No espelho seus gestos trajetam-se pelo agora em pulsações cardíacas com uma presença escapadiça demarcada por picos de reflexo palpável aos olhos. Sua imagem contorna o espelho como se ali não estivesse. Uma barata caminha oculta debaixo dos cacos de vidro, subindo pelo lado de dentro do pé da mesa de centro. Retém pedaços de visão da cozinha, estendido na soleira. Adentra-se pelo banheiro; olhando o próprio rosto adquiri-se de uma curiosa sensação de prazer enquanto o ar desenrola-se pelo pulmão, e além. Uma sensação ao longe e perto atenta-lhe aos cortes nos pés. Sangue pisado no chão branco. Olha-se no fundo de sua pupila com sensualidade que não conhecia, capaz de desviar a própria percepção pelos sentidos a um encontro inundado de portas e chaves perdidas. Labirinto suficiente para que a dor aguda nos pés se esvaia. Rastro sorri e gosta do que vê – quase como se não visse. Sorri pelo canto da boca fisgada de curiosidade.


Debaixo do chuveiro a água fria vai aquecendo. Ele se toca inteiro, desfazendo a tênue película gosmenta. Toda e qualquer sensação embate-se devidamente manipulada para que seu corpo não adquira posse de si. Rastro não se permite negligenciar em demasia às sensações, sabotando-se atento ao elo que aquece real o brilho da estrela que ele, com os ouvidos pelo de-dentro, já sabe extinta. Nestes poucos minutos de vida, ali, ele alertou-se ao insistente fato de que sua memória pode ser deteriorada, com rapidez acima do usual, pela sua curiosidade. Finca o pensamento em ambas: memória-curiosidade. Estanca-se acreditando numa vitalidade inflexível, como se a humanidade nele vasculhando-se presente, toda a gentileza em seus movimentos, a firmeza e precisão com que suas mãos articulam-se por entre os cabelos, enquanto a água molha, revele-lhe de uma realidade... impossível. Quase impraticável. Uma miragem impossibilitada de ser negada pelo toque. Ainda que não agora. Encontra-se tão próximo de tudo que é como se quase pudesse jamais ser tocado ou tocar. Vê Aurélio andando entre pessoas. Olha-as pelos olhos de Aurélio, experimentando um modo de atrair o mundo que cutuca-lhe como se fosse um discurso vivo delirante. Percebe uma desistência de si rondando-lhe. Observa com curiosidade um pedaço dele mesmo, dentro dele, instigando os pensamentos de Aurélio como se estes afirmassem-se devaneio. Repentinamente a geladeira começa a zunir. Água escorrendo sobre a pele. A cada momento presente pelo qual estende-se vívido multiplica-se de uma potência que, no ato de testemunhar-se cintilante, arqueia-se continuamente consistente e atenciosamente maleável. Ambiente e Rastro enlaçando-se um ao encalço do outro.


Atravessa o corredor sendo tocado pelos passos. Antecipa-se aos próprios gestos. Pela primeira vez vê-se de corpo inteiro, escorrido de pingos por detrás de palavras. O colchão manchado. Um cheiro podre. O travesseiro despontando-se por debaixo da cama. Coloca a mão no peito. O coração pulsante. Vê os anéis das valvas com propriedade de regenerarem-se, demarcando uma engrenagem ardorosa, empurrando sangue a cada pedaço de mundo que evoca-lhe vivo. Sua respiração é pacientemente funda. Ao longe avista náusea. Senta-se na cama observando a sensação que desperta-lhe pedaços minúsculos de um silêncio atrás do silêncio. Tremelica um choro, um timbre sem eco, perfurante. Esfrega a mão pela pele como se tocasse Aurélio. Ergue a mão num acumulo de curiosidade, certo de que num gesto seria-lhe possível desfazer-se do machado, segurar-lhe a mão dizendo com olhos nos seus olhos – vamos fugir por entre as árvores. Aurélio atravessa a rua sem perceber o semáforo esverdeando-se, suspenso pela voz que alucinou-se nele. Um cálculo fulminante desarma-lhe o olho, provocando uma agudez no mesmo instante em que uma mão alça-lhe pela gola. Cai de costas na calçada. Por pouco um carro não colide; arremessando seu corpo à distância necessária que comprova a força do baque.







esquivo >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>



Eu tenho tão pouco medo da vida. Olhos piscam com a extensa claridade do céu inatingível. Dois riscos apagados separam nuvens estendidas pelo azul, Oceano, areia. Umidade formigando o vão entre os dedos dos pés. Água salgada avançando-se, entremeando-os levemente pouco a pouco entre as unhas, em torno das veias saltadas no topo dos pés, pelos pêlos do tornozelo. Aconchegando calcanhar-calcanhar de um lacre tal que não mais escorregam-se para dentro, parado ou enquanto caminha. Água. Esticando-se adiante, estralando os nós entre os membros, desentortando a curva fixa da coluna. Ainda que certo pontiagudo tremule repuxo pelo resto de carne e ossos. Pontiagudo fisgando o calcanhar de um emaranhado ininterrupto de dentro para fora de fora para dentro - casual e arrepiado o suficiente a desequilibrar o desigual escorrendo-lhe para dentro. Há lapsos quando a memória se esquece ao lembrar com exatidão, onde à espreita a mulher tenta reconhecer-se necessária a ponto de avivar equilíbrio ao corpo. Seu coração saltado numa combinação de alegria e medo, água pressagiando em meio ao vagaroso ritual de aproximação a possibilidade do estrondo em espiral. O mar vindo, devagar, manso - a caminho; vindo absurdamente meticuloso e despojado, movendo-se intimo em sua direção, em torno, antes que as ondas possam sequer desfazerem-se do impulso que deveria arrepiá-las faiscantes. Impulso que as estica em empurrão casual. Ele deseja o zunido surdo e esquivo enfiado e todo escorregadio por entre a calmaria, cutucando curiosidade. As ondas são promessa quase palpável enquanto o mar anda, galgando cada poro de suas pernas. Contornando pegadas dissolvidas em torno dele. O céu aberto ampliando-se ainda mais na limpidez da água. Ele em queda livre demarcada pelo andaime que seu olhar deflagra. Armando abre os braços, degustando a vivacidade em ser-se tumor, pesando-se em todas as direções. Ele, em corpo presente, nunca participara do mar. Toca o sal molhado com a ponta dos dedos, esfregando-o em circular sobre a língua e engole de olhos fechados. Sensação de Helena, próxima e impalpável – tão invisível quanto a cena que o feto detecta quando reage às imagens fora do útero. Sacudindo as pernas provoca espumas na água; é que é tão cortante pra mim. Eu estar com minha mãe todos os dias e saber que ela morre. Viva, com o cabelo por ser-se penteado e logo em seguida tão escorrido, cruzando comigo pelos cômodos onde cada instante é momento-chave - Helena varrida pra fenda que a porta aberta dobra, de olhos atentos e quase arregalados, penteando o cabelo. Eu tenho saudade de minha mãe. Essa mulher diante de mim; quem é? O rosto de Helena é nuvem; vento desenha sua voz - eu não sei ser o que seu olhar pede, meu corpo treme, meus olhos afundam-se pelos cantos, fico debatendo-me em direção contrária ao teu olhar, apoiando meu ventre como se você ainda se desatasse dentro dele. Armando enruga narinas, arqueia sobrancelha, aperta mandíbula; não apenas com os pés na areia, mas também com os dedos da mão enfiados pelos fios púbicos de Paulo e a cabeça à beira de ficar dependurada para fora do colchão. Olha para baixo olhando para o alto - seu rosto no mar marchetado no azul do céu; braço eriça-se em estico, cauteloso, buscando, de um atento dolorido, despistar-se, desviar-se da própria mão vindo, em prenúncio já afiando-se em desvio que acata nova investida. Desejando um desvio que desocupe-lhe o instante ínfimo de tua mão impedindo tua mão; dobrando, partindo a distância percorrida nesse ponto preciso de um modo tal que tua mão atinge-lhe o rosto. As mãos se tocam; em verdade há um vão entre elas, uma película, ao ser-se atravessada, confundindo a imagem desejada. Com as pontas dos dedos o distante escapole-se em feixes esparramados. Insustentável pele. Há uma dissimulação no reflexo e em Armando exigindo que, exatamente por ser-se escorregadio, as mãos se toquem. As ondas prometem-se ainda mais visíveis e sensíveis. O desejo agita-se promessa de uma violência, de um debater-se de prazer e fome, de asas abertas que nas ondas disfarça o secreto que é andaime ao formigamento prometendo um desvio, uma dimensão a mais - esse céu e esse mar e esse corpo e esse calor pelo de-dentro podem ser de outros modos. Água desempena-se mansa. Armando, fincado no mar que avança, é disfarce de algo que está prestes a estar pronto - sempre prestes a. Isca enganchada em iscas. Seu corpo sacode-se em pontos distintos, pequenos pedaços, aqui e ali, quase autônomos, dispersos por pausas, pressentindo-se esquivo à luz do dia que entorna-se quase curva pelas rachaduras da cortina. Seu rosto inchado, suas costas tentando tocar os joelhos pelos mamilos, baba de cor quase diabólica de tão rosada com cheiro de cigarro restos de comida álcool fezes cocaína esperma - tudo diluído escorre-se em mancha pelo lençol. O mar ainda límpido e um pouco abaixo do joelho tem cheiro e cor de alto mar. O escuro do Oceano exige que se imagine entranhas. Armando não precisa nem dizer, mas quando olha Paulo, num relance, antes de se afastar, com os cotovelos no balcão, fica evidente o medo. Aquela espécie de medo que desfigura qualquer utensílio facial que por ventura possa disfarçá-lo com plausível veemência numa possibilidade de escoamento que o dilui. Ainda assim, quando olha, fisgado pela curiosidade que lhe acelera ou desacelera em um fixo ponto qualquer, a areia é branca. Friccionando sons enquanto pisa.


Rumor avisando superfície. Há camadas. Superfícies, seja pelo de dentro como pelo de fora com pelo entremeio. E é delirante de vivo quantas vezes uma superfície já se fundiu em uma superfície mais ou menos interna! Só pra ser de verdade o que não tem como não ter outro nome que não superfície – mero e por um instante único. A superfície já foi um fiapo de entranha. (Superfícies afastadas fundem-se?). O Sol parece mais quente. Ou não.Com as mãos espirra água pelo corpo. Já faz um tempo que o mar avança. As ondas permanecem-se hipóteses que vão alargando o mar em sua infinita promessa de estilhaçar-se em ondas. Despejando a aflição que é um fiapo mísero que dá cócegas. Aflição escoando-se em ininterruptas retomadas de começos. Será que este é um tipo de mar onde ondas fracassam-se? Mas ele as escuta. Armando as escuta! Escuta. Ondas rumor, ranhura ao pé do ouvido que chega-lhe pelas costas. Vira-se abrupto para onde as costas olham e de novo o rumor atinge-lhe os ouvidos pelas costas. Armando sorri escondido; é que as ondas não podem sequer desconfiar que ele sabe que elas enrolam-se umas nas outras quando a noite escurece. Ele não sabe como deve ser a noite neste mar, mas certamente elas devem se desenrolar lá pela espécie de algum meio deste Oceano. Será que se eu visitar o impulso onde elas nascem, que deve ser bem lá pelo meio de uma fenda rasgada numa fratura afundada, lá onde o Oceano deve ser muito mais apertado de escuro, será que as ondas desatam-se das amarras que as tornam hipóteses e por fim apagam-se pela areia? Será que as quase ondas deste mar são um soluço que as desviam de converterem-se em ondas por causa de um espanto sísmico? Quanto mais longe da fenda, maior é a possibilidade da onda quebrar-se? Mas as ondas não estão ausentes! Eu as ouço – a voz é tamanha límpida quanto o céu já arredondado da cabeça aos pés. Armando fala enquanto dorme; eu as ouço. Comprime os lábios com força, amarelando-os, interrompendo o fio de baba. Ouvir as ondas que estão ali não importa tanto – protege-se numa fisgada. Estar com esse mar pouco abaixo do joelho é (quase) tudo o que vale ver e sentir? Uma espécie de grito riscado atravessa um solavanco em Armando; grito rasgado bica-lhe funduras, rasga-se em sua carne. Sacolejado ele abre os olhos já empurrando-se contra a parede. Com as nádegas nuas empenando o travesseiro. Anchieta abocanha-lhe a mão com a tua própria; o que aconteceu? O que aconteceu? Ambos quase abandonados em pedaços soltos pela cama. Inevitavelmente atados pelas mãos. Engolfadas como ondas. Olham-se. Atravessando-se sem perder de vista a superfície. Superfície pegajosa - curvas e sombras e cílios são anzóis. Anchieta quase aflito, indagando. Armando de um ofegante em voz firme. Gaivota; diz. Gaivota.








pedaços >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>



Antes do baque, pelo canto dos olhos, ao torcer o pescoço num estralo, Aurélio vê a mão alçando a si mesmo, arremessando ao acaso o botão estrangulado da gola da camisa. Uma mão articulada ao seu próprio rosto olhando-o pelas costas. Pessoas amontoam-se em torno. Um homem ruivo com olhar feminino estende-lhe a mão. Aurélio agradece num aceno com a cabeça, os cílios, as juntas das mãos, os cotovelos. Aos poucos desvencilha-se das pessoas, recuperando-se. Caminha revolto. Olhar a faísca de uma réplica de si no fundo dos olhos ardeu-lhe um incômodo. Ainda assim suas pernas esparramam o corpo com distinta elegância, quase à beira de um rugido capaz de enfeitiçar pedaços humanos. O esforço é estrondoso e por inúmeras vezes tem a nítida clareza de que pra não mais lutar com o fantasmagórico enjôo acabará recurvado, pisando pra dentro, descompassado. O cheiro de sabonete ainda está em seu corpo. Armando não estava em casa. Ninguém estava em casa, a não ser suas mãos espalmadas no azulejo, o gosto de comprimidos fervendo-lhe o ânus, água quente respingando forte na cabeça, despregando-lhe o encardido pelo ralo. Aurélio olha pingos saltados do queixo despedaçando-se pelas unhas rachadas dos pés. Apesar da luz do dia, cada passo é uma mordida. Contorna as pessoas com a exatidão dos que acreditam saber a direção. Aurélio sabe do agora. Leveza feroz avolumando-se, sacudindo-lhe ressurreição. Na vitrine vê a câmera fotográfica. Sai da loja com o dedo no clic, olhar em riste, à espreita. Como que quase invisível para si mesmo.


Quer pegar Rastro pelo calcanhar, antes mesmo que ele o pressinta em torno. Contorná-lo por dentro sem que ele possa resistir ao desejo da aproximação. De repente sente o cheiro dos olhos saltados de Consuelo. Aurélio olha. Pressente o vento contornando um corpo à sua frente; aperta o primeiro clic. Num furo preenche a imagem com Rastro em uma falta de face riscando-se para longe dali. Ainda assim Aurélio retém um modo de andar que parece-lhe familiar; o jeito como ele suspendeu os ombros ao estender-se pela sucessão de passos. Aponta os olhos aonde ele acredita ter escoado-se. Na entrada da estação do metrô um homem sentado na calçada olha-o com a boca aberta. Uma de suas pernas entornadas sobre um pedaço rasgado de papelão, bizarramente inchada em enormes e desproporcionais gomos de carne escura. O pé pequeno sendo inutilmente como que cuspido pelas bolotas estufadas. E nas pontas dedos deformados de tão arredondados e sem unhas. Aciona o clic antes mesmo que o homem esboce surpresa ou indignação. Numa espécie de exato instante anterior ao rosto inerte e pedinte alterando-se. Seus olhos não precisam ver os degraus; sabe de cada um deles enquanto desce - com o dedo no clic. Os gestos das pessoas interfaiscando-se. Na janela do edifício que eleva-se atrás de si vê um rapaz sem camisa, com cara de bebê, tiritando uma caneta na borda da janela, de nariz arqueado, olhando o movimento ali embaixo com curiosa distração atenciosa, com gotas de sangue entre os dedos e minúsculos hematomas. Clic. Rostos focando-se entre corpos em movimento. A voz metálica aproximando-se na medida em que segue afundando-se pelos corredores, pelas escadas rolantes. O trem está atrasado. Não importa; murmura. Há pessoas ali. Fixa o olhar do outro lado dos trilhos; fotografa um passo parado enquanto o corpo com seios saltados, saia justa, brincos de pedras acinzentadas, mulher arranhada em vulto, articula-se paralela à linha amarela. Então um dedo toca-lhe a nuca. Vira-se brusco fixando-se na falta de imagem; o ambiente desloca-se dali, para logo em seguida recuperar-se em meio a pessoas surgindo pelos túneis. Os trilhos tremem um tom veloz e pesado. Ele caminha para bem perto da boca do túnel. O trem empurra vento nos corpos. A porta se abre e somente ele, ali, perto do espelho, longe do amontoado de gente, entra. Pelo caminho do vão entre o vagão e o cimento, onde um dos pés ainda permanece, olha a gruta escura de onde o vagão escapuliu-se. Vê um corpo indefinido pela penumbra, olhando-o. Um rosto sendo corroído pelo vapor de quase negrume. Um quase rosto; pinceladas inventando uma forma que pressente sentido. Um quase rosto fincado em lascas de um corpo como que suspenso sobre os trilhos. Flutuante e ondulante, pulando de sintonia em sintonia, um instante aqui outro quase aqui. E na altura dos olhos uma cintilância. A porta se fecha depois que contorce um clic quase desperdiçado.


Sim, olhando-me. Mas sim, eu sei que olhavam-me; repete. Os olhos. Dentro do túnel, aos solavancos, sentado, olhando o reflexo da própria face na janela enfrente, assombra-se com o peso puxando a expressão facial numa queda torta. Enrugado entre as sobrancelhas. Colado ao lado direito da anuviada imagem de seu rosto, um homem de óculos remexe um saco pequeno. Retira uma caixa observando-a atento. Clic. O homem olha Aurélio e sorri já de imediato dizendo comprei agora mesmo uma lente de contato. Mês que vem eu compro a do outro olho; finaliza. Encaixa os óculos de grau dentro dos dois buracos fundos, de onde olhos infantis recusam-se emergir. Um sorriso fisgado pela metade. Clic. Clic. Aurélio quase mata a repugnância que acumula-se inflexível avançando-se vagarosa pelos gestos. Clic, clic, clic, clic, clic, clic, clic e a ânsia recua. Pelo seu lado esquerdo, paralelo ao homem lendo as letras dispersas pela caixa, Aurélio vê seu próprio rosto, quase que colado ao teu próprio. Um naco de luz pesa sobre sua mão. Clic. Levanta-se num sobressalto com quase o mesmo calafrio dos últimos dias. Olha aturdido o banco vazio. A porta se abre no instante mesmo em que arremessa-se dali em passos pedindo licença. Quase sorrindo. Não como o verme frágil. Será que as mortes ao menos lhe ensinaram a esticar um certo tipo de sorriso que se dá a estranhos? Toca os testículos em rápidos movimentos com a mão. Pensa sobre si e parece que o que pensa não é realmente o que poderia pensar. Caminha.


O corredor bifurca-se à sua frente. Está só, com passos vindo de algum lugar. Diminui os passos e os passos que ouve também diminuem. Caminha e os passos caminham. No corredor da esquerda ainda está só. Pelo da direita caminha rumo aos próprios passos vindo em sua direção. Interrompe-se num susto. O outro olha-o de frente. Aurélio não pergunta. O homem à sua imagem e semelhança diz Rastro sou... Clic.







raízes >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>



Antes, durante, não havia dor. A imagem que veio, do horizonte em céu azul sobre oceano de mesmo azul, despertou-se em bandas cada vez ainda mais cada qual a seu modo. Ainda que indissociáveis. O silêncio entre eles, deles, soava-se ameaçador. Ainda que calmos, à espreita. O calor pesando sobre seus corpos. Penso em Aurélio e Armando, agora; só agora é que percebi que nem me dei conta de que você nem mencionou seu pai. Não sei o que dizer. Não há o que dizer. Sei que nunca quis aprender coisa alguma com ele. Cortina bem aberta. Janela fechada. Raízes gemendo. Dá pra ouvir quando o vento e a rua ficam bem quietos. Boa parte da árvore curvada sobre a janela; folhas e galhos barrados pelo vidro. Noite alta e clara. Longo uivo raspado da coruja denuncia alguém parado na calçada. Carro bem enfrente; Haroldo soerguido, inclinado pelo canto da janela. E alguém dentro olhando aqui pra dentro. Distante, bem distante, não é somente o gemido das raízes debatendo-se com a terra, há o pulso surdo rufando-se no ouvido. Tudo tão longe-perto quanto a quase inviabilidade em tocar e ver a pele do som. Ínvio ver, propriamente dito, pele que biologia não tolera. Algo ainda assim chama, acredita em sua potência visual e peso. Há dias em ponto cego que me pego tentando encontrar um instante sequer de cumplicidade entre ele e eu. Essa imagem que quero é uma imagem que certamente pode ter acontecido quase como a vejo, ainda que não exatamente como eu a vejo. Pego partes dele em momentos distintos, sensações necessárias ao instante que construo e vou fazendo a colagem. Foi um dia em uma rodoviária. Eu iria pegar um ônibus pra uma outra cidade, pela primeira vez sozinho. Eu era pequeno. De algum modo me roubaram. Levaram minha carteira. Só fui perceber já no Posto fiscal. Contei-lhe tudo pelo telefone e ele veio me buscar. Eu com vergonha não digo muita coisa. Ele me diz que procurou pela carteira em todos os lugares, pelos arredores da rodoviária. Essa é a imagem que construo. É a partir daí. Vejo-o na rodoviária, perguntando às pessoas, olhando nos lixos, abrindo os matos em torno, separando com o olhar os objetos pelo chão; ele com aquela expressão de atenção levemente viril. Há dias em que eu o vejo por horas e horas, inebriado de perseverança, à caça de minha carteira. Até se cansar. E há uma outra cena. Quando ele chorou pela morte do padrasto de minha mãe, dentro do carro, enquanto o semáforo estava vermelho. Eles ficavam juntos por muito tempo. Iam pra fazenda juntos.


Helena não se interessa pela coruja, nem pelo carro. Continua olhando na direção da janela, enquanto ouve. Ela mora aqui no telhado há anos; Haroldo de costas para a janela e para o abajur aceso. Seu rosto um oco escuro. Helena absorta, iscada pelas imagens que seu pensamento infla. Recorda do fotógrafo que havia em Aurélio quando se conheceram. Ainda hoje, enfiados em alguma caixa no topo do guarda-roupa, instantes que ele fotografava insistentemente. Com aquele fervor contagiante. Que foi extinguindo-se à medida que o namoro encorpava-se e a cumplicidade crescia. Havia algo mais naquelas imagens além dos momentos em si, muito além do visivelmente capturado. Só agora, olhando pra face oca de Haroldo, somente anos depois é que Helena percebe que tudo é nada mais que sintonia. Sintonia. Aquece um nó de tensão dentro dela. Bem no canto da dobra do fundo atrás de Haroldo, algo se mexe; um frio com pontadas debaixo da costela aponta insistentemente o canto. Há uma lembrança alimentando-lhe olhar o canto. Só há a dobra no canto escuro; Helena decide, aturdida com a força de sensação da presença. Há esse incômodo mutilando-a bem devagar. Helena sente dores não apenas nas juntas. Armando? Aurélio? Algo mais? Alguma pessoa já esquecida? Armando sugando-lhe os seios; alimentando-se do que meu corpo fabricou. Aurélio bebendo meu gozo. Entende? Foi um grito surpresa. Haroldo não consegue disfarçar o vacilo minúsculo no corpo. Entende? Pergunta mais uma vez. Helena, lábios abertos, atravessada de ira. Inchando-se maior que a si mesma. A borda de sua escápula, perto do meio de suas costas, fincada em nós musculares. Enfia os dedos pelos cabelos pintados há dois dias atrás, reluzindo a ondulação loira e lúcida de brilho que agora está gasto pelo suor das últimas horas. Há um auge arrastando Helena à sombra. De súbito quase sorri, é que veio-lhe também o susto de Armando ao descobrir que ela não era loira de nascença. Pinta os cabelos desde os quinze anos. Helena incomoda-se com a potência da memória arrastando-lhe à sombra tremulando-se no canto, com face de Aurélio. Ela não pode negar o arrepio entre as pernas. Formigando-lhe as tiras de carne sem pele resfriando-se quente. Retorcida por um fogo atingindo-a pelo de-dentro enganchado à dobra do canto. Dois extremos dissolvendo-se ao em torno, encharcando um em direção ao outro. O bater cardíaco desregulado.


Mas Aurélio falou de alguém no quarto, lá em casa. Rastros perseguindo-o; repetiu uma vez quase em silêncio, um tom mais alto, outro e outro e mais outro encorpando voz. Os dois estavam há tanto tempo em murmúrios, vez ou outra recortados pelo baque vocal alto e brusco; há demasiado tempo em trocas de olhares e palavras absolutamente inevitáveis, ancorados na sintonia que os comprimiam em uma espécie de um único como que separado em dois autônomos. Então quando a voz surgiu, assim, crescente, firme e prolongada, atiçando-se, Haroldo retrucou de súbito, quase sem decifrar o dito; é dentro do espelho, rastreando-me, pouco antes de matar a mulher de cabelo vermelho, que eu tive a impressão, essa sensação que arrepiou-me quando mencionou rastros. As imagens que construo, dele, naquele específico instante em que arrumava-me enfrente ao espelho, antes de ir até ela, sem saber exatamente aonde ir, pressenti ou como que quase vi rastros dentro do espelho. E então surgiram, sim, me recordo, vieram-me essas imagens dele, procurando minha carteira, ainda que absurdamente comprimidas em um tempo tão breve, tão ínfimo que só agora eu as decifro nítidas. Haroldo a caminho dela. Ambiente sucede-se. Olhou-a tanto que ela é um corte, uma abertura por onde ele entra. Olhou-a por tanto tempo e com tal demasiado peso que perfura-a. Ela perfurando-o, igualmente. No toque ambos são vãos sugando um ao outro. Delicados como receosos. Ele tem mãos enfiadas uma na outra, na altura do fim das costas. Helena de mãos espalmadas, soerguendo o corpo. A sombra de Haroldo gesticula-se pelos arredores enquanto caminha. Acende o abajur atrás de Helena e retorna, tendo outro abajur aceso atrás de si. Ambas silhuetas quase preenchidas por completo em ocos escuros. Brilho nos olhos vez ou outra. Há alívio assim. Há uma espécie de quase dúvida. Do lado de fora também há estilhaços nos dois olhos fincados em oco escuro, oculto entre as folhas. Ficam assim, olhando-se. Cada qual pelo oco um do outro. Será que o tempo pode reconfigurar-lhe propício, abrindo-lhe as comportas que dão virilidade ao sangue? A impossibilidade em gerar filhos pode ser a fragilidade que lhe proporcione o controle permitindo-lhe exercitar-lhe contra a vontade de tornar-lhe irrespirável. Estaria ela apta a este pacto? E se descobrisse algo mais, muito mais instigante que a mera função de seu útero? E se ela lhe instigasse cultivar-se no desejo de mãos espremendo-lhe até o instante da essencial lacuna? Fratura que causa pulso. Inevitável despertando-lhes abrupta vontade de mais calor. Ambos ancorados um no outro. Desde que não acreditem-se poder seguir além daquilo que não toleram? Oco no oco demarcou-lhes uma distância inacessível, um silêncio inesquecível. E ainda ali um apêndice de paz espiritual, calma. As pontas dos dedos de Helena, espremidos contra o chão, formigam. O brilho úmido no olhos, em ambos ocos, ergueram-nos um em direção ao outro. Abraçaram-se com carinho esquecido. Faces apertam-se. Lágrimas tentam apagar mácula. Sujo? Engancham-se com mais força. A impressão marchetada pelo abandono, agora, na possibilidade de esquecerem-se inúteis, pressagia-se teor exorbitante. Entrelaçam-se em braçadas de estremecerem-se. Temerosos. Aliviados.


Temerosos. Aliviados. No beijo trocam fôlegos; e mordidas na língua. A distância entre eles faz sombra quase firme, ininterruptamente percorrida pelo que lhes suga um ao outro. Desejou-se ardentemente que o silêncio inesquecível mantivesse o seu arrepio. Para tanto jamais deveriam esquecer o repuxo que os precipitou um em direção do outro. Bastaria?

Deveriam executar uma ininterrupta distração atenciosa. Para tanto estavam dispostos a guardar testemunhas, restos de coisas que aparentemente não podem ser detectadas, mas que revelam a quentura que lhes atiça pelo quotidiano. Cultivar o lar com veemência suficiente pra que mentir pelo lado de fora não seja facilmente despertado como farsa. Estou com fome. O que você tem na geladeira?










miragem >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>




Ao alcance de teus olhos; e de tuas mãos se fosse-lhe possível desatar as dobras dos braços, cada junção enfim que cola-lhe de locomoção. Num instante, num clic, tão somente e de súbito o corredor, que antes parecia espremer a quase aparição, gotejando-o visivelmente em carne e osso, articulando-se diante de Aurélio. A imagem de si próprio é como um vestígio pouco a pouco ressonando-se de uma inconstância que instiga-lhe uma rachadura em seu equilíbrio, instigando-lhe a desqualificar a epiderme acreditada pelos olhos em prol de uma miragem que parece sabotar-se. Em seu silêncio, ouvindo a notícia do furacão que devastou a cidade, sentado no balcão do bar iluminado pelos saltos de imagens da televisão, de uma quietude urgente; bem ali seu de-dentro tremula contra uma fisgada lunática diante dos nacos da imagem que debandam-se. Um espectro refratado anuviando-lhe o entorno. A foto solta no balcão, apagada da imagem que ele insiste acreditar que ali estava - está. Mas; murmura numa crescente promessa, como que alçando um quase uivo, áspero e cortante por resvalar-se presente antes mesmo de sonorizar-se e já pressagiando uma quase exuberância por ter fissuras de sons que progressivamente desaquecem-se. Não é só a imagem. O indivíduo usou da voz... cortada bruscamente pelos lábios internos da lente da câmera. O som na concatenação de suas palavras soa como que uma inflexível força de atração atestando a veracidade corpórea de Rastro diante de Aurélio. Uma torção rápida que quase desatina o pensar de Aurélio se não fosse sua percepção sabotando o próprio giro que lhe faz humano; uma obsessão suave de urgência tranqüila segurando um copo de cerveja. Como reter o próprio corpo? Ali, diante de seu olhar. Como segurar a mim mesmo estendendo-me fora desse eu? Diferente, apesar de; sim, não era eu. Foi o que Aurélio constatou com seus próprios olhos olhando-o, olhando esse quase Aurélio. Um modo de estender-se corpo que já não era seu. Que já não é seu.


Uma voz diz apontando para o lugar onde Aurélio está; me dá uma cerveja da mesma da dele. Que segura o copo com as pontas dos dedos e bebe. Seus braços longos com veias protuberando-se quase até a curva dos ombros. O Rastro; diz acendendo um cigarro, sem virar-se para Aurélio. Só depois de engolir a cerveja é que solta a fumaça. Sacode o cigarro em baques na borda do cinzeiro; nenhuma cinza cai. O Rastro está permitindo-se a você sem que você seja rodopiado para fora da Terra. Isto tudo nos deixa muito intrigados e curiosos diante de você, tanto quanto dele próprio. Nas duas últimas palavras o homem olha-o fundo, com ondulações quase ameaçadoras ao redor dos olhos, inquirindo alguma espécie de reação que os reatasse uma cumplicidade que Aurélio nem imaginara ter sido abalada. A face de Aurélio crispa-se diante da imagem na televisão de corpos emergindo na medida em que as autoridades vão retirando a água que esparramara-se pela cidade. Olha para o garçom enquanto coloca uma nota de dez debaixo da garrafa. Num canto esquerdo vê-se uma loira, sentada no colo de um homem de bigode lambendo-lhe a testa. Aurélio contorna-se ao que articula-se consigo, precipitando-se à luz néon que vaza pela porta adentro. Na última imagem do interior do bar, ao virar-se, já com os pés na calçada, vê o garçom apontando para a televisão, enquanto o homem, desta vez com uma expressão facial decididamente ofensiva, esfrega uma mão na outra e seus olhos acendem-se avermelhados, faiscando alaranjados riscos crispados. Aurélio afasta-se atraindo vigor. No meio da multidão tem a nítida impressão de muitos olhos chamando-lhe, à espreita. E o desejo é tão súbito; balbucia, com o cigarro dependurado num dos cantos da boca. O cigarro saltando como que um pedaço de carne acoplado aos lábios. Lábios encharcando o filtro amarelo. Aurélio é queimado por uma onda de desejo de ter Rastro ao alcance de teus olhos. Eu espero por ti?; diz pelo caminho. E os passos adentra-lhe por entre as pessoas, por entre o escuro que vielas desmancham. Aurélio precipita-se na investigação que lhe arde a vontade de reter a quentura que desvelou-lhe o inusitado calor que foi diante de Rastro. E é; é? ... e que continua enunciando-lhe e ultrapassando-lhe, apagando-lhe o vazio que na foto persiste. Já é noite com luzes de postes declarando a mulher de turbante, do outro lado da rua, ereta, magra, caminhando entre os carros velozes e a calçada, parando de um súbito demasiado calmo e suave, tocando algo com a ponto dos pés, a mulher em longas mangas acinzentadas. A mulher de pele brilhante abaixa-se e ergue um rato pelo longo fino rabo e coloca-o do lado de uma árvore. Com dedos delicados joga terra sobre ele; a mulher lava a ponta dos dedos na poça d’água e prossegue ereta. Aurélio com olhos na mulher que se afasta. A mulher cortês. Não houve clic. Qual dos possíveis clics da mulher deflagraria seu instante? Esse.